2014, um primeiro ano de Sínodo sobre a Família


2014 foi muito intenso de atividades do Papa Francisco. São muitos os momentos e as imagens que semearam a presença de esperança do Santo Padre: a viagem à Terra Santa; a oração pela paz no Vaticano com os presidentes de Israel e da Palestina; a viagem à Coreia do Sul; a viagem à Turquia e tantos outros momentos e encontros. Mas 2014 ficará também para a história como o primeiro ano do Sínodo sobre a Família. Neste Sal da Terra Luz do Mundo recordaremos o essencial desse acontecimento fundamental para o futuro da Igreja
 2014, foi um ano em que a temática da família esteve em plano de evidência na atividade da Igreja e nas preocupações do Papa Francisco. Em 2015 serão bem-vindos os contributos de todos para o Sínodo. O Santo Padre já deu o exemplo e começou neste mês de dezembro um ciclo de catequeses nas audiências gerais das quartas-feiras sobre esta temática da família. Por exemplo, no passado dia 17 de dezembro, dia em que completava 78 anos, o Papa Francisco propôs uma catequese sobre a Família de Nazaré:
 “Jesus nasce numa família. Deus escolheu nascer numa família que Ele próprio formou. Formou-a numa perdida localidade do Império Romano. Não em Roma, não numa grande cidade, mas num periferia quase invisivel, aliás, mal afamada. Recordam-no até os Evangelhos, quase como que a dizer: ‘De Nazaré pode vir algo de bom?’ Se calhar, em muitas partes do mundo, nós próprios falamos ainda assim, quando ouvimos o nome de algum lugar periférico de uma grande cidade. Pois bem, foi precisamente dalí, daquela periferia do Império Romano que se iniciou a história mais santa, aquela de Jesus entre os homens!”
“Desde então, todas as vezes que há uma família que guarda no coração este mistério da vocação e missão da família, ainda que seja na periferia do mundo, está a realizar-se o mistério do Filho de Deus. E Ele vem para salvar o mundo.”
O Papa Francisco deu assim o mote de um ano que será pleno de trabalho nas dioceses, nas paróquias e nas famílias. Um ano para percorrer o caminho proposto pelo Santo Padre até outubro de 2015. Um caminho que teve o seu início em 2013 com o Inquérito às comunidades do qual foi extraído o Instrumentum Laboris do Sínodo. Em outubro de 2014 os bispos reuniram-se no Vaticano:
O Sínodo Extraodinário dos Bispos sobre os desafios pastorais da família no contexto da evangelização, começou no domingo dia 5 de outubro com uma Solene Eucaristia na Basílica de S. Pedro. Na sua homilia o Papa Francisco, referindo-se ao Sínodo, deixou claro o que deve ser uma assembleia sinodal:
“As assembleias sinodais não servem para discutir ideias bonitas e originais, nem para ver quem é mais inteligente… Servem para cultivar e guardar melhor a vinha do Senhor, para cooperar no seu sonho, no seu projeto de amor a respeito do seu povo. “
Na segunda-feira, dia 6 de outubro, no início da primeira assembleia do Sínodo sobre a família, o Papa Francisco falou aos padres sinodais e considerou ser este encontro uma grande responsabilidade que nos obriga a “falar claro” “com frontalidade evangélica” e o “coração aberto”.
Por isso, peço-vos, por favor, estas duas atitudes de irmãos no Senhor: falar com parresia – clareza e coragem evangélicas – e escutar com humildade. Fazei-o com muita tranquilidade e paz, porque o Sínodo decorre sempre cum Petro et sub Petro e a presença do Pai é garantia para todos e custódia da fé. Caros irmãos, colaboremos todos para que se afirme com clareza a dinâmica da sinodalidade.
Foram três os documentos oficiais que saíram do Sínodo: a Mensagem e o Relatório final e ainda o discurso final do Papa. O Santo Padre propôs um discurso clarificador que foi muito aplaudido:
Com a aprovação e publicação do Relatório final, concluíram-se, ontem sábado ao fim da tarde, a assembleia extraordinária do Sínodo dos Bispos sobre a família. Foi o Papa Francisco a encerrar os trabalhos com um discurso em que alertou contra atitudes de rigorismo ou de facilitismo na ação da Igreja.
A Igreja tem as portas escancaradas para receber os necessitados, os arrependidos e não só os justos ou os que pensam que são perfeitos. A Igreja não se envergonha do irmão caído e não finge que não o vê, pelo contrário, sente-se levada e quase obrigada a levantá-lo de novo.
Nesta sua único intervenção no Sínodo (após a breve saudação inicial), o Papa referiu as “tentações” que insidiavam os Padres Sinodais, a começar pela da “rigidez hostil”, ou seja, de quem se quis “fechar no que está escrito, na letra” em vez de se deixar “surpreender por Deus”.
Desde o tempo de Jesus, é a tentação dos zelosos, dos escrupulosos, dos cuidadosos e dos hoje chamados tradicionalistas e também dos intelectualistas.
O Papa advertiu também para a “tentação do facilitismo [buonismo, em italiano] destrutivo, quem em nome de uma misericórdia enganadora enfaixa as feridas sem primeira as curar e medicar”. “É a tentação dos facilitistas, dos medrosos e também dos chamados progressistas e liberais”, realçou.
Papa Francisco pediu que a Igreja não transforme “o pão em pedra”, para a atirar contra “os pecadores, fracos e doentes” e alertou para a “tentação de descer de cruz, para contentar as pessoas” em vez de purificar o “espírito mundano”.
O debate, assegurou o Papa, decorreu “sem colocar nunca em discussão as verdades fundamentais” do sacramento do Matrimónio: indissolubilidade, unidade, fidelidade e abertura à vida.
O dever de cada bispo, como “pastor” – sublinhou o Papa, dirigindo-se aos Padres sinodais - é o “alimentar o rebanho que o Senhor lhe confiou” acolhendo e indo ao encontro das ovelhas perdidas “com paternidade e misericórdia, sem falsos medos”. E concluiu convidando os Bispos e todos os membros da Igreja universal a prosseguirem o trabalho de discernimento sobre as temáticas abordadas, amadurecendo as decisões que possam vir a ser tomadas na assembleia sinodal de outubro de 2015.
“Caros irmãos e irmãs, agora temos ainda um ano para amadurecer, com verdadeiro discernimento espiritual, as ideias propostas e encontrar soluções concretas para tantas dificuldades e incontáveis desafios que as famílias têm de enfrentar. “
2014, foi o primeiro ano de um caminho sinodal que procura renovar a vocação e a missão da família no mundo contemporâneo enfrentando com frontalidade os novos desafios pastorais. 2015, será mais uma etapa deste Sínodo sobre a Família.
Continuaremos a acompanhar e a aprofundar este tema sempre aqui na Rádio Vaticano em língua portuguesa. (RS)