Reflexão para o V Domingo do Tempo Comum- Mateus 5,13-16 ( Ano A)



O texto evangélico que a liturgia propõe para o V Domingo do Tempo Comum é a continuação do famoso discurso da montanha: Mateus 5,13-16. Trata-se de um discurso amplo e rico, dirigido aos discípulos de Jesus, embora uma grande multidão esteja também presente (cf. Mt 5,1ss).

Após a proclamação das bem-aventuranças (cf. 5,1-12), Jesus continua seu ensinamento, fazendo uso de fortes imagens, como o sal e a luz, chamando a atenção dos discípulos para a responsabilidade que eles devem ter para que, de fato, as bem-aventuranças sejam vividas em plenitude.

Não é difícil imaginar que houve tendência ao desânimo e à desistência da parte dos discípulos, após o anúncio das bem-aventuranças; daí a necessidade de uma mensagem ainda mais impactante, como a que vemos no Evangelho de hoje, com a atribuição aos discípulos de causarem no mundo efeitos semelhantes ao que o sal causa na comida e a luz nas cidades e nas casas. Assim, já antecipamos uma das primeiras conclusões: a vivência das bem-aventuranças pelos cristãos e cristãs é indispensável e essencial para o mundo.

Pelo primeiro versículo, percebemos de imediato que as palavras de Jesus têm destinatários específicos: os discípulos! Porém, não aqueles quatro primeiros apenas (até então Ele havia chamado apenas Pedro, André, Tiago e João, cf. 4,18-22), mas todos os que haveriam de entrar no seu seguimento, portanto, também nós, cristãos e cristãs do século XXI.

Assim Ele se dirige: “Vós sois o sal da terra. Ora, se o sal se tornar insosso, com que salgaremos? Ele não serve para mais nada, senão para jogado fora e ser pisado pelos homens” (v. 13). Para a primeira imagem usada, o sal, em grego to. a[laj – tó hálas, podemos encontrar muitas referências ao longo de toda a tradição bíblica, mas está muito claro que Jesus se refere ao seu uso e importância na alimentação, tanto como condimento quanto como conservante.

Além de seu uso na alimentação, o sal possui uma ampla variedade de significados, e todos apontam para um elemento precioso e, portanto, de grande valor. Era símbolo de algo duradouro e imperecível, tornando-se sinal da indissolubilidade da aliança, de modo que uma aliança eterna era chamada “aliança de sal” (cf. Nm 18,19). Outro significado é o de elemento de purificação, com seu uso nos sacrifícios cultuais (cf. Lv 2,13; Ez 43,24). Ainda como elemento purificador, vemos o exemplo de Eliseu que purifica com sal as águas das fontes perto de Jericó (cf. 2Rs 2,19-22).

Como acenamos anteriormente, e considerando o inteiro versículo, Jesus se refere ao sal com seu valor alimentício; isso se evidencia pelo alerta ao risco da perda de sabor. A versão litúrgica do texto pode nos levar a um certo prejuízo na compreensão, ao empregar a palavra “insosso”; a fórmula correta, correspondente ao texto original, em grego, é “se o sal perde o sabor”, ao invés de “se o sal se tornar insosso”. É um simples detalhe, porém, muito importante, uma vez que o texto emprega o verbo grego mwrainw – morainô, o qual possui dois significados: perder a sensatez e perder o sabor. Com isso, concluímos que Jesus quis dizer que o discípulo que não pratica as bem-aventuranças é como o sal sem sabor, porque é um ser humano insensato, ou seja, louco.

Assim como o sal sem sabor não é capaz de dar gosto à comida, o homem insensato não é capaz de transformar a sociedade, não passa de um parasita. Para Jesus, o cristão não pode viver na indiferença nem na omissão; deve ser um agente transformador, alguém que faz a diferença. Como não tem sentido o sal sem sabor, não tem sentido um cristão sem fome e sede de justiça ou com ódio no coração, por exemplo, uma vez que o maior diferencial do “sabor” cristão no mundo é o amor.

A segunda imagem utilizada por Jesus ocupa todo o restante do nosso texto (vv. 14-16), e parece ser mais simples e, consequentemente, mais compreensível, pelo menos na primeira parte: “Vós sois a luz do mundo. Não pode ficar escondida uma cidade construída sobre um monte” (v. 14). A imagem da luz atravessa toda a Sagrada Escritura, muito mais que o sal, bem como seu efeito é muito mais visível.

O próprio Mateus já tinha apresentado Jesus como luz no início da sua missão (cf. 4,12); no Evangelho segundo João, é Jesus mesmo quem se auto apresenta como luz do mundo (cf. Jo 8,12). Assim, entendemos que Jesus está compartilhando sua vida e sua missão com seus discípulos, ao chamá-los de “luz do mundo” (v. 14a); trata-se também de uma chamada de atenção para a responsabilidade que esses têm, e uma demonstração de solidariedade para com eles: Jesus compartilha sua própria essência com os discípulos.

Para a tradição judaica, Israel era a luz das nações (cf. 42,6; 49,6); mas o que Jesus constata é a negação dessa realidade, ou seja, Israel está dominado pelas trevas, graças a à sua estéril religião. Ao transferir, ousadamente, para simples e pobres pescadores galileus, um dos principais atributos e funções de um povo, Jesus está desafiandio toda uma tradição; podemos dizer que Ele está revogando um dogma! O mundo não pode ser privado de luz, porém, se dependesse de Israel com sua decadente religião, não haveria outro destino senão as trevas.

O exemplo da “cidade construída sobre o monte” (v. 14b) é mais uma chamada de atenção para o despertar e a consciência da comunidade cristã. Há uma evocação a Jerusalém, cidade construída sobre o monte (cf. Is 2,1), a qual, apesar de sua esterilidade, mantinha sua visibilidade em decorrência de sua situação topológica. Aqui, a responsabilidade dos discípulos é ainda mais enfatizada: eles devem se tornar manifestos tanto quanto uma cidade em uma montanha! Independentemente do tempo e das circunstâncias, a prática das bem-aventuranças não pode deixar de ser percebida na vida dos discípulos.

Na dúvida de que a expressão “a luz do mundo” aplicada aos discípulos pudesse não ser bem compreendida de imediato, Jesus parte para um exemplo de dimensão menor, porém muito mais concreto e compreensível: uma lâmpada (candeeiro) dentro de uma casa (v. 15). Ora, uma vez que se acende uma luz, em qualquer que seja a dimensão, ninguém poderá ocultá-la, assim como as bem-aventuranças: se os discípulos de fato as praticarem, seu efeito na sociedade será inevitável; o mundo será transformado, sem dúvidas.

O versículo 16 mostra que, desde o início, havia uma preocupação de Jesus em combater qualquer sinal de envaidecimento da comunidade cristã; por isso, Ele ordena que os discípulos não deixem de manifestar-se como luz na sociedade, porém, que não sejam eles louvados por isso, mas somente o Pai que está nos céus. Novamente o sentido da responsabilidade vem evidenciado: como é que o cristão se manifesta como luz na sociedade? Com a prática das boas obras e, em outras palavras, com a vivência das bem-aventuranças.

A comunidade cristã é chamada a vivenciar a prática das bem-aventuranças em todas as circunstâncias, apresentando-se como o sal que dá sabor e preserva a humanidade da corrupção, bem como a ser sinal visível da luz verdadeira que é Jesus, reconhecendo que não deve ser ela o centro das atenções buscando privilégios ou reconhecimento, mas servindo, ou seja, iluminando.

A importância da luz mostra, de fato, o quanto é indispensável o testemunho do cristão. Porém, a função da luz/lâmpada não é ser vista em si, mas facilitar a vista das pessoas, ou seja, não é para a luz que olhamos, mas graças à luz podemos olhar e ver a realidade que nos circunda com as necessidades do próximo e, assim, intervir.



Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues