Reflexão para o XXIX Domingo do Tempo Comum- Lucas 18,1-8 (ANO C)




Chegamos ao vigésimo nono domingo do tempo comum, o que significa que já nos aproximamos do final do ano litúrgico, e a liturgia propõe, mais uma vez, um texto exclusivo do Evangelho segundo Lucas, ainda dentro da longa seção narrativa do caminho de Jesus em direção à Jerusalém: a parábola do juiz injusto e a viúva insistente (18,1-8). Por sinal, esse caminho também está sendo quase concluído, restando, depois de hoje, apenas dois domingos em que ainda leremos trechos desta seção narrativa. Como temos afirmado, não se trata apenas de um percurso físico-geográfico, mas de um itinerário catequético e teológico cuja finalidade é a formação do discipulado de Jesus. Por isso, é durante o caminho que o evangelista apresenta os principais ensinamentos de Jesus aos discípulos e discípulas, sendo até mesmo repetitivo e insistente, conforme a necessidade e a importância do ensinamento. O texto de hoje – Lc 18,1-8 – apresenta um dos temas que parece repetitivo na catequese de Jesus em Lucas: a oração contínua, juntamente com a busca da justiça e a perseverança na fé.

Localizada entre um pequeno discurso escatológico (Lc 17,20-37) e a parábola do fariseu e o publicano (Lc 18,9-14), a parábola do juiz injusto e a viúva insistente possui uma riqueza ímpar, embora carregue em si algumas dificuldades de interpretação, o que tem contribui para que ela passe quase despercebida no rico conjunto das parábolas exclusivas de Lucas. Inclusive, há estudiosos que, equivocadamente, a vêem como mera introdução à conhecida parábola do fariseu e o publicano. O certo é que a beleza e a clareza desta última, a qual será lida na liturgia do próximo domingo, contribui bastante para ofuscar a parábola de hoje, tão rica de sentido, mas de difícil interpretação. O primeiro passo para compreendê-la bem é considerar o contexto histórico das comunidades do evangelista, as primeiras destinatárias do texto.

Ora, entre os anos 80 e 90 do primeiro século, período da redação do Evangelho segundo Lucas, quando Domiciano era o imperador romano, as perseguições aos cristãos já estavam em plena evidência, o que gerava um clima de desânimo nas comunidades. Daí, a necessidade de uma palavra de encorajamento e estímulo à perseverança diante das hostilidades. Além da violência, os cristãos eram vítimas de preconceitos e marginalização; pelo fato de serem cristãos, todo o aparato administrativo do império conspirava contra eles; inclusive, nos tribunais as causas sempre eram julgadas e resolvidas em seu desfavor. Diante disso, muitos cristãos desanimavam. Além disso, muitos dos cristãos das comunidades ligadas ao evangelista Lucas eram de origem pagã e não estavam habituadas à prática da oração; em suas práticas religiosas anteriores a relação com o divino se dava basicamente por meio de ritos e sacrifícios, por isso tinham dificuldade de assimilar a necessidade da oração constante, e esse foi um motivo a mais para o evangelista insistir tanto com esse tema.

Feita a devida contextualização, olhamos para o texto, cujo primeiro versículo tem a função de introdução e síntese, ao mesmo tempo: “Jesus contou aos discípulos uma parábola, para mostrar-lhes a necessidade de rezar sempre, e nunca desistir, dizendo:” (v. 1). Quando o evangelista introduz um ensinamento de Jesus dizendo que é dirigido aos discípulos, é sinal de grande importância e valor; significa que esse ensinamento é essencial para o discipulado de todos os tempos, como esta parábola de hoje. De fato, a prática da oração contínua, juntamente com a luta por justiça e a perseverança na fé são dimensões que se a comunidade as abandonar, deixa de ser uma comunidade cristã. Obviamente, o evangelista não trata de uma oração ininterrupta como a repetição contínua de uma fórmula, mas de uma oração que caracterize a própria existência. É, acima de tudo, um convite para os cristãos ritmarem as suas vidas pela oração, 0u seja, pela intimidade com Deus. A oração contínua dos cristãos visa sempre a chegada do Reino (cf. Lc 11,2), que é essencialmente um reino de justiça.

Do versículo introdutório, passamos ao conteúdo próprio da parábola. Embora o tema anunciado pelo narrador tenha sido apenas a oração, logo se percebe que esse compreende também a busca por justiça. É uma parábola tipicamente lucana, a começar pela construção dos personagens: um juiz injusto e uma viúva insistente. É típico de Lucas apresentar dois personagens em paralelo com grandes diferenças entre si, sobretudo nas parábolas, com o objetivo de levar o leitor a escolher um lado, identificando-se com um dos personagens; exemplos: o pobre Lázaro e o rico avarento (cf. Lc 16,19-31), o fariseu e o publicano (cf. Lc 18,9-14). Eis, portanto, o primeiro personagem: “Numa cidade havia um juiz que não temia a Deus, e não respeitava homem algum” (v. 2). A tradição bíblica, desde o Antigo Testamento, apresenta os magistrados com traços bastante negativos, de modo que essa descrição do juiz da parábola é uma verdadeira síntese: a falta de temor a Deus e de respeito ao próximo representa o máximo de prepotência e injustiça.

A experiência de Israel em sua história mostra a atuação de juízes corruptos e adeptos ao suborno. Por isso, um dos alvos constantes das denúncias dos profetas foi a figura do juiz ou “administrador da justiça” (cf. Is 10,1; Am 5,7; etc). Além de ser uma crítica à magistratura, essa descrição também sintetiza o oposto de como deve ser a pessoa cristã. Temor a Deus não significa medo, mas reverência, é o reconhecimento da sua grandeza e do seu amor; o respeito ao próximo é o reconhecimento da dignidade do outro, do valor que cada um possui por ser imagem e semelhança do Criador, independente das características individuais de cada um. As características do juiz, portanto, são de quem não está aberto ao advento do Reino de Deus e, portanto, não pode fazer parte da comunidade cristã, por mais inclusiva que essa comunidade seja.

Paralelo ao juiz, o evangelista apresenta o segundo personagem, com características completamente diferentes: “Na mesma cidade havia uma viúva, que vinha à procura do juiz, pedindo: ‘Fazei-me justiça contra o meu adversário!’ (v. 3). Se o primeiro personagem é um homem poderoso e prepotente, um juiz, o segundo é uma mulher indefesa e injustiçada. Convém recordar que a figura da viúva, na tradição bíblica, é uma das expressões mais fortes da vulnerabilidade e, consequentemente, da predileção de Deus. De fato, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, há uma atenção especial às viúvas, principalmente na obra de Lucas (cf. Lc 2,37; 4,25-26; 7,12; 20,47; 21,2-3; At 6,1; 9,31.41). Ora, o estado de viuvez em si já é motivo de cuidados e preocupação, o que exige bastante proteção; tudo isso aumenta ainda mais quando a viúva tem um adversário (em grego: αντίδικος – antídikos) que ameaça constantemente os seus poucos direitos. A cena retrata bem uma situação muito comum no antigo Israel: as viúvas tinham suas heranças roubadas e ao recorrer aos tribunais tinham sempre o desfecho da causa em seu desfavor. Mesmo que o evangelista não especifique a causa do pleito da viúva, os casos mais comuns tinham a ver com herança.

Como se trata de uma parábola, o que significa uma comparação, o objetivo do evangelista é descrever, de modo comparado, a situação dos cristãos e cristãs da sua época. Assim, o juiz da parábola é a imagem do império romano com todo o seu aparato ideológico e militar que nega vida e dignidade aos mais pobres, mas também os sistemas dominantes de todas as épocas. A viúva, por sua vez, é a imagem das comunidades cristãs da época do evangelista, especialmente, que eram vítimas de injustiças e perseguições, sem nenhum direito reconhecido, sem nenhum amparo legal; essa imagem se aplica também às comunidades de todos os tempos. O Reino de Deus não será instaurado a partir dos sistemas de poder estabelecidos no mundo, mas a partir da luta insistente dos cristãos e cristãs que rezam e buscam a justiça constantemente.

O desfecho da parábola mostra que vale a pena lutar, mesmo quando tudo conspira contra: “Durante muito tempo, o juiz se recusou. Por fim, ele pensou: ‘Eu não temo a Deus, e não respeito homem algum. Mas esta viúva já me está aborrecendo. Vou fazer-lhe justiça, para que ela não venha a agredir-me!” (vv. 4-5). A insistência da viúva é uma demonstração de que não pode haver espírito de conformismo e nem resignação na comunidade cristã; essa não pode assistir passivamente às injustiças e negação da vida. Porém, não pode recorrer à violência. A construção do Reino exige paciência e coragem para lutar sempre, sem desanimar. As situações adversas não são meras fatalidades do destino, e muito menos vontade de Deus. Tudo o que é injusto deve ser mudado e combatido pelos cristãos e cristãs. Porém, as mudanças não acontecem com a rapidez desejada. Por isso, é necessário perseverança e paciência.

A explicação final que Jesus dá, de acordo com o evangelista, é o que dá margens a interpretações equivocadas da parábola, tornando-a difícil, como alertamos na introdução: “E o Senhor acrescentou: “Escutai o que diz este juiz injusto. E Deus, não fará justiça aos seus escolhidos, que dia e noite gritam por ele? Será que vai fazê-los esperar? Eu vos digo que Deus lhes fará justiça bem depressa.” (v. 6-8a). O equívoco que deve ser evitado é comparar o juiz a Deus. Ora, os atributos do juiz são o oposto de Deus, o qual é descrito por Lucas como um Pai cheio de amor e compaixão pela humanidade (cf. Lc 15). Uma das poucas certezas que podemos ter na vida é a de que Deus é justo e a sua justiça nos é favorável. Porém, essa certeza não deve ser motivo de conformismo, e sim um incentivo para os cristãos lutarem sem cessar, rezando, trabalhando e denunciando, para que os sistemas injustos deste mundo sejam transformados. A palavra mais repetida no texto é justiça: aparece quatro vezes (vv. 3.5.7.8). Assim, Jesus ensina, através do evangelista, que a essência de ser cristão é empenhar-se por justiça.

Na conclusão, temos uma chamada de atenção sobre a necessidade da fé perseverante como algo imprescindível para as comunidades manterem viva a luta por justiça: “Mas o Filho do homem, quando vier, será que ainda vai encontrar fé sobre a terra?” (v. 8). Se trata de uma pergunta retórica que visa chamar a atenção dos discípulos de todos os tempos. A vinda do Filho do Homem é uma referência à parusia, quer dizer, ao final dos tempos, e significa que a fé é necessária durante todo o tempo, durante toda a vida. É necessário que até lá os discípulos permaneçam em oração sem cessar. A fé, aqui, portanto, é a consciência e a atitude do discipulado em manter-se constantemente em oração, paralelo à busca por justiça.

Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN
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