Reflexão para o Terceiro Domingo do Tempo Comum- Mateus 4,12-23 (Ano A)




Com a liturgia deste terceiro domingo do tempo comum, iniciamos a leitura contínua do Evangelho segundo Mateus, a qual será interrompida após o sétimo domingo, para a vivência dos tempos da quaresma e da páscoa, e retomada somente depois da solenidade da Santíssima Trindade, já no décimo primeiro domingo. Durante esse intervalo – quaresma, páscoa e solenidades pós-pascais – também serão lidos trechos do Evangelho de Mateus, mas de modo aleatório, como já o fizemos nos tempos do advento e do natal, intercalando com os demais evangelhos. A partir deste ano, o terceiro domingo do tempo comum ganha um significado ainda mais especial, pois o Papa Francisco estabeleceu-o como o “Domingo da Palavra de Deus”, visando fazer crescer na Igreja a familiaridade com as Sagradas Escrituras, e reforçar o diálogo com os judeus e a unidade dos cristãos, como enfatiza a carta apostólica de instituição (Aperuit Illis - Abriu-lhes, nn. 3.5.15).

O texto lido hoje – Mateus 4,12-23 – marca, de fato, o início do ministério de Jesus na Galileia, tendo sido profundamente preparado pelos episódios anteriores: o batismo no Jordão (Mt 3,13-17) e as tentações no deserto (Mt 4,1-11). Liturgicamente, além do episódio do batismo (Mt 3,13-17), lido há dois domingos, o que nos preparou para lermos o evangelho de hoje foi o testemunho de João, o Batista, apontando Jesus como “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” e como “o Filho de Deus”, conforme o trecho do Quarto Evangelho lido no domingo passado (Jo 1,29-34). O episódio das tentações (Mt 4,1-11) será lido somente no primeiro domingo da quaresma. O texto de hoje é programático; nele são delineadas as principais linhas de todo o ministério de Jesus, ficando muito claro quais serão os principais destinatários da sua missão libertadora e o conteúdo da sua pregação. Pela extensão do texto, não conseguiremos comentar de maneira minuciosa versículo por versículo, mas colheremos a mensagem central.

Partimos do primeiro versículo, pois além de nos situar no tempo e no espaço, ele apresenta elementos importantes para a compreensão do restante do texto: “Ao saber que João tinha sido preso, Jesus voltou para a Galileia” (v. 12). A prisão de João se torna um divisor de águas na vida de Jesus. Além de marco cronológico para o início da sua missão, é também um sinal de qual será o seu destino, assim como o de praticamente todos os profetas: a perseguição. Do ponto de vista geográfico, o retorno à Galileia está relacionado aos episódios do batismo e das tentações, vividos no Jordão e no deserto, ambos localizados na região da Judeia. Mas significa muito mais do que isso. Antes de tudo, significa que a missão de Jesus não será uma repetição da missão de João. Ora, se João pregou na Judeia e Jesus vai para a Galileia iniciar lá o seu ministério, significa que há descontinuidade entre os dois. O programa de vida de Jesus é completamente novo. A Galileia era uma região periférica, uma terra má afamada, conhecida pela pouca ortodoxia do seu povo. Logo, o início da missão de Jesus nessa região indica que os primeiros destinatários da sua mensagem são as pessoas excluídas e marginalizadas, gente sem boa reputação.

Mesmo ciente da novidade que Jesus inaugura, assim como fez no “evangelho da infância” (Mt 1 – 2), o evangelista apresenta a sua missão, desde o início, como cumprimento das profecias, por necessidade da sua comunidade. Por isso, ele explica o início na Galileia à luz das Escrituras: “Deixou Nazaré e foi morar em Cafarnaum, que fica às margens do mar da Galileia, no território de Zabulon e Neftali, para se cumprir o que foi dito pelo profeta Isaías:” (v. 13-14). A mudança de Nazaré para Cafarnaum é estratégica. Nazaré era apenas um pequeno povoado, o que na linguagem bíblica representa fechamento de mentalidade, conservadorismo exagerado e apego às tradições. Com uma mensagem tão libertadora como a sua, dificilmente Jesus seria aceito e compreendido lá, como atesta, inclusive, o evangelista Lucas, ao dizer que após a primeira pregação de Jesus em Nazaré já quiseram mata-lo (cf. Lc 4,16-30). Já Cafarnaum, cujo nome significa “aldeia da consolação”, era uma cidade média e um importante entreposto comercial. Localizada às margens do lago de Genesaré, o que Marcos e Mateus chamam de mar da Galileia, provavelmente por questões teológicas, Cafarnaum era um centro de circulação de pessoas, de mercadorias e de ideias. Isso facilitava também os constantes deslocamentos de Jesus, para pregar também em outros lugares. Pessoas de diversas proveniências passavam constantemente por Cafarnaum. Num cenário assim, a Boa Nova de Jesus circularia melhor, o que não significa que tenha havido uma acolhida unânime. É interessante recordar que, embora todos os evangelistas apresentem Cafarnaum como um dos cenários da atuação de Jesus, somente Mateus diz que ele fixou morada lá.

Como a comunidade de Mateus era fortemente influenciada pelo judaísmo, ele foi buscar no profeta Isaías (Is 8,23 – 9,1) uma passagem que justificasse essa opção tão revolucionária de Jesus: “Terra de Zabulon, terra de Neftali, caminho do mar, região do outro lado do rio Jordão, Galileia dos pagãos! O povo que vivia nas trevas viu uma grande luz” (vv. 15-16). Zabulon e Neftali foram as primeiras tribos invadidas pelos assírios no séc. VIII a.C., onde começou a miscigenação da população, fazendo a Galileia toda ser chamada de “Galileia dos pagãos”. Ora, tanto o exército da Assíria deportou parte da população local, quanto levou povos estrangeiros para habitar na Galileia, fazendo nascer um grande sincretismo. Isso levou a população de Jerusalém e de toda a Judeia a criar um preconceito histórico contra os galileus, tratando-os como gente inferior, pessoas praticamente excluídas da salvação. No entanto, foi as pessoas dessa região que Deus escolheu para conhecerem primeiro a sua luz que brilha em Jesus. Isso é um fato bastante revolucionário: A grande luz de Deus não foi acesa para os judeus considerados puros, frequentadores assíduos do Templo de Jerusalém, mas para um povo desprezado, para as vítimas de preconceitos e exclusão, gente considerada impura. O começo do ministério de Jesus na Galileia significa, portanto, a sua identificação com os marginalizados em geral.

Tendo apresentado o cenário e os destinatários primeiros do ministério de Jesus, o evangelista apresenta a sua mensagem, o conteúdo da sua pregação: “Daí em diante Jesus começou a pregar dizendo: “Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo” (v. 17). O chamado à conversão e o anúncio do Reino são o centro da mensagem de Jesus. Mateus chama de “Reino dos Céus” a mesma realidade que os demais evangelistas chamam de “Reino de Deus”. Provavelmente, ele evita usar aqui o nome de Deus para não ferir a sensibilidade dos judeus, tão enraizada na sua comunidade. Esse Reino é uma sociedade alternativa, é o sonho de Deus para a humanidade. Ele é dos céus, porque foi todo pensado por Deus, mas seu destino é a terra, é a história. Não se trata de uma vida futura, mas é viver a vida presente conforme o projeto de Jesus. O Reino dos Céus é, portanto, um projeto de mundo e sociedade onde haja igualdade, fraternidade, amor, concórdia, solidariedade e paz; é um mundo sem preconceitos e nem exclusões. A instauração desse Reino na terra é tão urgente e necessária que, um pouco mais adiante, o próprio Jesus ensinará os discípulos a pedirem ao Pai, em oração, que “Venha o teu Reino” (Mt 6,10), ao ensiná-los a rezar o Pai nosso. Toda a práxis de Jesus é manifestação desse Reino, porque ele mesmo é o Reino em pessoa. Por isso, ele diz que o Reino está próximo, pois ele está presente no mundo e está prestes a iniciar a sua missão libertadora, marcada pela prática do bem. E a sua práxis deve ser continuada pelos seus discípulos de todos os tempos. Para abraçar um projeto como esse é necessária uma mentalidade nova. Por isso, o anúncio do Reino é precedido do imperativo “convertei-vos”. Conversão significa uma mudança radical de mentalidade, e não uma simples intensidade nas práticas religiosas e devocionais; é olhar o mundo de maneira nova e adotar um novo estilo de vida. E a lógica do Reino exige isso.

A instauração do Reino é tão urgente, que Jesus chama logos seus primeiros quatro colaboradores, duas duplas de irmãos, cujos chamados se tornam paradigma vocacional válido para todos os tempos. Eis o relato dos dois primeiros: “Quando Jesus andava à beira do mar da Galileia, viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André. Estavam lançando a rede ao mar, pois eram pescadores. Jesus disse a eles: “Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens”. Eles imediatamente deixaram as redes e o seguiram” (vv. 18-20). O cenário do chamado dos primeiros discípulos é o mar, embora se tratasse de um grande lago, apenas. O evangelista chama de mar por razões teológicas. Para a mentalidade bíblica, o mar era a morada do mal, sinônimo de perigo e morte. Propositalmente, é nesse ambiente que Jesus escolhe as primeiras pessoas para o seu seguimento: os irmãos Simão Pedro e André. Ele não vai a um ambiente cultual recrutar devotos, mas vai onde há gente sem reputação e sinais de perigo e morte. Embora não vivessem mal economicamente, pois a pesca era uma atividade rentável, os pescadores não gozavam de nenhum prestígio social, pois o contato com o mar tornava a atividade depreciativa.

Como se vê, o chamado de Jesus acontece no cotidiano: os pescadores são chamados enquanto lançam as redes. Isso serve para ilustrar a necessidade de adotar um novo estilo de vida para seguir Jesus e, consequentemente, inserir-se no Reino. O deixar as redes imediatamente para seguir Jesus (v. 20) significa exatamente a passagem de um estilo de vida para outro. O convite a ser “pescadores de homens” (v. 19) deve ser bem esclarecido, pois é muito fácil de ser deturpado, como tem sido, inclusive. Ora, muitas vezes, usa-se essa expressão para justificar proselitismos e até imposição de crenças, o que não combina com o projeto de Jesus. Como afirmamos anteriormente, o mar tem um sentido muito negativo para o mundo bíblico; é sinônimo de perigo, pois evoca o domínio do mal. Ser “pescador de homens” (de gente!), portanto, é ser sinal de vida, e assim é a missão dos seguidores de Jesus em todos os tempos: tirar homens e mulheres de condições desumanas; é restituir a dignidade às pessoas, combatendo todos dos tipos de mal que assolam o mundo, como a violência, a corrupção, a fome e as injustiças. O seguimento de Jesus exige o comprometimento com essa causa.

Na continuidade, o evangelista apresenta o chamado de mais uma dupla de irmãos: “Caminhando um pouco mais, Jesus viu outros dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu e seu irmão João. Estavam na barca com seu pai Zebedeu consertando as redes. Jesus os chamou. Eles imediatamente deixaram a barca e o pai, e o seguiram” (vv. 21-22). O cenário continua o mesmo, mas temos algumas novidades, principalmente nas renúncias. Enquanto Simão Pedro e André deixaram apenas as redes, o texto diz que Tiago e João deixaram a barca e o pai. Há, portanto, um crescendo nas exigências.  O primeiro chamado enfatiza a ruptura com a ordem socioeconômica, representada pelas redes (v. 20), enquanto o segundo destaca a ruptura com a estabilidade, representada pela barca, e o mundo cultural e religioso, simbolizado pelo pai. Com isso, o evangelista quer dizer que a relação com Jesus deve ter precedência sobre todas as instâncias da vida. Também é um sinal de que, ao longo da história, as exigências para o seguimento de Jesus tendem a aumentar cada vez mais, conforme os sinais dos tempos.

Na conclusão, o evangelista apresenta um primeiro resumo da missão de Jesus, recordando o caráter itinerante do seu ministério: “Jesus andava por toda a Galileia, ensinando em suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando todo tipo de doença e enfermidade do povo” (v. 23). Como se vê, é uma atividade dinâmica, própria de quem não vive acomodado, mas vai ao encontro das pessoas, onde há necessidade. Além de sintetizar a atividade de Jesus, esse versículo também exprime a natureza da “pesca de homens” para a qual ele chamou os discípulos: “curar todo tipo de doença e enfermidade do povo”, o que significa esforçar-se constantemente para que as pessoas sejam libertadas de todos os males que ferem a dignidade de filhos e filhas de Deus.


Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues