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Reflexão para a Solenidade da Ascensão do Senhor- Mateus 28,16-20 (Ano A)


Neste domingo em que celebramos a solenidade da ascensão do Senhor, o evangelho proposto pela liturgia é Mt 28,16-20, texto que contém os últimos versículos do Evangelho segundo Mateus. A solenidade da ascensão marca a consumação da ressurreição: o Ressuscitado penetra no mundo do Pai e, ao mesmo tempo, confirma sua presença perene entre os seus seguidores, confiando-lhes a missão de continuarem a sua obra. É importante destacar, logo de início, que o evangelho segundo Mateus não chega a descrever a ascensão. Aliás, essa vem descrita apenas na obra lucana (Lc 24,50-51; At 1,6-11) e no acréscimo redacional de Marcos (Mc 16,19). Em Mateus, o que é narrada é a manifestação do Ressuscitado aos discípulos na Galileia, dando-lhes as últimas recomendações e garantindo continuar com eles para sempre.  

Podemos dizer que o texto de hoje é uma síntese conclusiva de todo o evangelho segundo Mateus. À medida em que escreve suas últimas linhas, o evangelista e sua comunidade fazem questão de resumir a essência de tudo o que já tinha sido apresentado ao longo da obra. É isso que percebemos hoje. Portanto, para compreendê-lo bem é necessário que o leitor esteja familiarizado com todo o Evangelho. Na impossibilidade de recordar o Evangelho todo, recordamos, pelo menos, os últimos acontecimentos narrados: o relato da ressurreição com a manifestação do anjo e do próprio Ressuscitado às mulheres (Mt 28,1-10), e o suborno dos guardas pelos sacerdotes com a mentira do roubo do corpo de Jesus pelos discípulos (Mt 28,11-15). O texto de hoje sucede imediatamente a esses acontecimentos. Tanto o anjo do Senhor (28,5-7), quanto o próprio Jesus (28,10) ordenaram às mulheres que avisassem aos discípulos que retornassem à Galileia para, ali, fazerem eles também a experiência do encontro com o Ressuscitado.

É à luz das informações recordadas anteriormente que podemos compreender o que o evangelho de hoje diz logo em seu primeiro versículo: Os onze discípulos foram para a Galileia, ao monte que Jesus lhes tinha indicado” (v 16). A menção aos onze recorda a perda de Judas, o qual já não fazia mais parte do grupo dos discípulos, mas tem também um outro significado: o número doze representava um projeto de reconstituição do antigo Israel, alimentando a ideologia nacionalista e triunfalista. Esse projeto faliu, devido à rejeição de Israel ao projeto de Jesus, cujo ápice foi à morte escandalosa na cruz. À luz da ressurreição, a comunidade mateana, fazendo uma releitura dos últimos acontecimentos, percebe que a missão universal confiada à Igreja não precisa mais ser configurada às tradições de Israel. O projeto do Reino dos Céus que Jesus anunciou ao longo do Evangelho não coincide com a restauração do reino de Israel. Por isso, o número onze não significa incompletude da comunidade, mas é sinal de uma nova perspectiva e ruptura com os antigos esquemas. Não podemos esquecer que a eleição de Matias para recompor o número doze é um elemento exclusivo da teologia de Lucas (At 1,15-26). Na perspectiva de Mateus, para a comunidade do Ressuscitado sobreviver e crescer, é necessário abandonar os esquemas tradicionais do judaísmo.

Segundo a recomendação, os discípulos foram para a Galileia, ao monte indicado. Ora, em Jerusalém acontecera a grande tragédia para a comunidade dos discípulos. Além de ter sido o cenário da paixão e morte de Jesus, a capital não oferecia nenhuma perspectiva para a comunidade do Ressuscitado ali florescer. Basta recordar o conluio dos poderes religioso, militar e político para desacreditar a ressurreição, com a ideia do roubo do corpo de Jesus pelos discípulos (28,11-15). Aliás, Jerusalém foi hostil a Jesus desde o seu nascimento, com a matança dos inocentes decretada por Herodes (Mt 2,16). O retorno à Galileia, portanto, era essencial para a sobrevivência da comunidade e, ao mesmo tempo, para o reencontro dos discípulos com as motivações e bases originárias. Além das incompreensões ao longo da caminhada, marcada inclusive pela rivalidade entre os discípulos (Mt 20,20), os acontecimentos envolvendo a paixão e a morte de Jesus deixaram a comunidade profundamente abalada. Daí a necessidade de um retorno ao ideal primeiro para fazer a experiência do monte. Ora, de acordo com as tradições do Antigo Testamento, o monte é, por excelência, o lugar do encontro com Deus e com a sua palavra. Ao longo de todo o seu Evangelho, Mateus situou Jesus no monte em diversas ocasiões, desde às tentações (Mt 4,8-10) até a paixão (Mt 26,30). Inclusive, foi no monte que Jesus proferiu o mais importante dos seus cinco discursos: o discurso da montanha (Mt 5– 7), que se constitui como o seu programa de vida, cujo centro é as bem-aventuranças (Mt 5,1-12). Logo, o convite para os discípulos retornarem à Galileia para o monte é exatamente para voltarem à essência do projeto de vida proposto por Jesus, percorrendo o seu mesmo caminho e fazendo as mesmas opções. É também um modo de indicar a continuidade entre a mensagem de Jesus de Nazaré, o galileu, e o Ressuscitado. E a Galileia como região desprezada entre os judeus é também uma advertência aos discípulos quanto aos destinatários primeiros da missão: os pobres e marginalizados.

Na sequência, o texto descreve a reação dos discípulos: Quando viram Jesus, prostraram-se diante dele. Ainda assim alguns duvidaram” (v. 17). A princípio, parecem duas posturas opostas diante da ressurreição, mas o evangelista as vê como complementares. Prostrar-se é sinal de adoração e de convicção na ressurreição e na divindade de Jesus. Aqui, o evangelista emprega o mesmo verbo usado para indicar a atitude dos magos quando visitaram Jesus recém-nascido em Belém (Mt 2,2.11); Esse verbo (em grego: προσκυνέω – proskinêo) tanto indica adoração quanto sujeição a alguém, como deve ser a postura da comunidade: adorar e sujeitar-se somente ao que foi ensinado por Jesus, assumindo completa autonomia e emancipação em relação aos preceitos da Lei e às imposições do imperador romano. Assim como os magos, os discípulos aceitam os valores do Reino como universais e, por isso, lutarão para que cheguem a todos lugares da terra, indistintamente. Ao contrário do que parece, a dúvida não faz mal à comunidade. Tanto é que Jesus não repreende os discípulos por isso. A dúvida é sinal de busca, e não de rejeição. Ao longo da missão universal da Igreja, muitas dúvidas surgirão, tanto em quem anuncia quanto nos destinatários do anúncio. As dúvidas abrem espaço para o Espírito Santo iluminar a comunidade e conduzi-la à verdade. Enquanto as certezas geram autoritarismos e imposições, as dúvidas dão margem ao diálogo, à abertura ao diferente. O antídoto à dúvida não é a certeza, mas a fé e o amor. Quanto maiores forem as dúvidas, maior será a necessidade da fé e do amor na comunidade.

Diante da reação dos discípulos, Jesus toma a palavra e profere seu breve discurso que, de certo modo, sintetiza todo o Evangelho de Mateus (vv. 18-20). É importante perceber que não são palavras de despedida, mas de envio e comissionamento. Ao dizer “Toda autoridade me foi dada no céu e sobre a terra” (v. 18), Jesus está decretando a falência dos poderes sediados em Jerusalém (religioso, militar e político), e estabelecendo uma nova ordem. Está também reivindicando para si a identificação com a figura do “Filho do Homem” (Dn 7,13-14) e, ao mesmo, tempo corrigindo-a: ao Filho do Homem do livro de Daniel, foram dados poder e domínio. Jesus trocou o domínio pelo serviço (Mt 20,28), preferindo exercer sua autoridade no amor. A verdadeira autoridade, motivada pelo amor, parte da periferia, enquanto em Jerusalém tem apenas força de morte, uma vez que lá o poder é exercido com base na mentira, no medo, no suborno e na violência, conforme o relato da paixão mostrou claramente. “Céu e terra”, aqui, significam a totalidade da criação submetida a Jesus Ressuscitado; quer dizer que o Pai lhe entregou tudo.

O discurso prossegue com o envio universalista e inclusivo: “Portanto, ide e fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (v. 19). Aqui, Ele está, de fato, fazendo uso da sua autoridade e, mais uma vez, mostrando a diferença da sua para outras formas de exercício de poder. Ele não envia seus discípulos para impor e nem dominar, mas para fazer novos discípulos, uma vez que no seu Reino não há súditos, mas irmãos. Essa é, sem dúvidas, uma das maiores novidades de seu projeto de vida e de mundo. Não envia os discípulos para doutrinarem ninguém, mas para apresentarem um programa de vida, delineado ainda no início do Evangelho, com a proclamação das bem-aventuranças (Mt 5,1-12). Destacamos aqui a força do verbo empregado pelo evangelista para a expressão “fazer discípulos”: no grego, idioma original do evangelho, há o verbo “discipular” (μαθητεύω – matheteúo); com ele, o evangelista consegue distinguir o discipulado de uma simples tarefa, o que não distinguimos com facilidade em nossa língua, com as traduções que temos. Gerar discípulos ou discipular é, antes de tudo, viver o discipulado plenamente para torná-lo fecundo e, consequentemente, gerar mais discípulos.  O novo e universal discipulado deve nascer do testemunho, ou seja, da maneira de viver dos discípulos, os quais não são cumpridores de tarefas, mas seguidores de Jesus de Nazaré, o Ressuscitado. À missão de “discipular”, é intrínseca a função de batizar, como sinal de pertença à comunidade dos discípulos. Mateus pensa na sua comunidade, obviamente, marcada pela tensão entre os adeptos e os contrários à prática judaica da circuncisão. Dos novos discípulos, não deve ser exigido nenhum sinal externo além do batismo. A fórmula trinitária expressa a preocupação do evangelista para que o batismo de ingresso na comunidade cristã não seja confundido com o rito penitencial praticada por João Batista. A expressão “Em nome de/do” indica a força do batismo. Na tradição bíblica, o nome de uma pessoa é a sua própria identidade e essência, expressa a totalidade do seu ser. Portanto, ser batizado em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo, é ser impregnado da essência de Deus.

Como última recomendação do mandato, Jesus apresenta uma advertência, mais do que uma ordem: E ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei!” (v 20a). Em nenhum outro Evangelho essa expressão teria a profundidade que tem em Mateus.  Ora, Mateus é, por excelência, o Evangelho do ensinamento (em grego: διδαχή – didakê), tanto que está estruturado em torno de cinco discursos: o discurso da montanha (Mt 5–7); o discurso missionário (Mt 10); o discurso em parábolas (Mt 13); o discurso comunitário (Mt 18) e o discurso escatológico (Mt 24–25). Nesses cinco discursos está totalidade do ensinamento de Jesus, para a comunidade de Mateus, e é isso o que deve ser ensinado. A comunidade cristã tem a missão de ensinar tudo, sem distorção alguma, do que Jesus ensinou e ordenou. Essa totalidade do ensinamento de Jesus, no entanto, não passa de um jeito de viver, ou seja, é um programa de vida. Por isso, não pode ser distorcido e nem substituído por uma doutrina ou ideologia. A última frase de todo o evangelho é, na verdade, a síntese: a certeza da presença de Jesus na comunidade: Eis que eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo” (v. 20b). Embora a tradução do texto litúrgico apresente o verbo “estar” no futuro, o evangelista o emprega no presente, conforme o texto grego. Isso significa que Jesus nunca se ausentou da comunidade, ou seja, Ele não foi embora para voltar depois, mas permaneceu sempre. A presença é um tema central no Evangelho de Mateus: no início, Jesus é apresentado como Emanuel, cujo significado é “Deus está conosco” (1,23); Ele mesmo garantiu estar presente quando a comunidade estivesse reunida em seu nome (18,20), e garante, aqui na conclusão, permanecer para sempre com os discípulos. Por isso, com essa certeza, Mateus não tinha motivos para descrever Jesus subindo para o céu, como fez Lucas. O importante é que a comunidade possa sentir sua presença e que essa a estimule a viver e ensinar somente o que Ele ensinou.

O Ressuscitado está, de fato, presente na comunidade que vive o ideal de vida proposto nas bem-aventuranças. Nessa comunidade todos são discípulos e irmãos. Essa comunidade celebra, acolhe, convence pelo testemunho e coloca-se em saída para, com alegria, compartilhar tudo o que Ele ensinou!

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

Mensagem do Papa Francisco ao Dia Mundial das Comunicações Sociais 2020



« “Para que possas contar e fixar na memória” (Ex 10, 2).
A vida faz-se história 
»

Desejo dedicar a Mensagem deste ano ao tema da narração, pois, para não nos perdermos, penso que precisamos de respirar a verdade das histórias boas: histórias que edifiquem, e não as que destruam; histórias que ajudem a reencontrar as raízes e a força para prosseguirmos juntos. Na confusão das vozes e mensagens que nos rodeiam, temos necessidade duma narração humana, que nos fale de nós mesmos e da beleza que nos habita; uma narração que saiba olhar o mundo e os acontecimentos com ternura, conte a nossa participação num tecido vivo, revele o entrançado dos fios pelos quais estamos ligados uns aos outros.

1. Tecer histórias
O homem é um ente narrador. Desde pequenos, temos fome de histórias, como a temos de alimento. Sejam elas em forma de fábula, romance, filme, canção, ou simples notícia, influenciam a nossa vida, mesmo sem termos consciência disso. Muitas vezes, decidimos aquilo que é justo ou errado com base nos personagens e histórias assimiladas. As narrativas marcam-nos, plasmam as nossas convicções e comportamentos, podem ajudar-nos a compreender e dizer quem somos.
O homem não só é o único ser que precisa de vestuário para cobrir a própria vulnerabilidade (cf. Gn 3, 21), mas também o único que tem necessidade de narrar-se a si mesmo, «revestir-se» de histórias para guardar a própria vida. Não tecemos apenas roupa, mas também histórias: de facto, servimo-nos da capacidade humana de «tecer» quer para os tecidos, quer para os textos. As histórias de todos os tempos têm um «tear» comum: a estrutura prevê «heróis» – mesmo do dia-a-dia – que, para encalçar um sonho, enfrentam situações difíceis, combatem o mal movidos por uma força que os torna corajosos, a força do amor. Mergulhando dentro das histórias, podemos voltar a encontrar razões heroicas para enfrentar os desafios da vida.
O homem é um ente narrador, porque em devir: descobre-se e enriquece-se com as tramas dos seus dias. Mas, desde o início, a nossa narração está ameaçada: na história, serpeja o mal.

2. Nem todas as histórias são boas
«Se comeres, tornar-te-ás como Deus» (cf. Gn 3, 4): esta tentação da serpente introduz, na trama da história, um nó difícil de desfazer. «Se possuíres…, tornar-te-ás…, conseguirás…»: sussurra ainda hoje a quem se utiliza do chamado storytelling para fins instrumentais. Quantas histórias nos narcotizam, convencendo-nos de que, para ser felizes, precisamos continuamente de ter, possuir, consumir. Quase não nos damos conta de quão ávidos nos tornamos de bisbilhotices e intrigas, de quanta violência e falsidade consumimos. Frequentemente, nos «teares» da comunicação, em vez de narrações construtivas, que solidificam os laços sociais e o tecido cultural, produzem-se histórias devastadoras e provocatórias, que corroem e rompem os fios frágeis da convivência. Quando se misturam informações não verificadas, repetem discursos banais e falsamentepersuasivos, percutem com proclamações de ódio, está-se, não a tecer a história humana, mas a despojar o homem da sua dignidade.
Mas, enquanto as histórias utilizadas para proveito próprio ou ao serviço do poder têm vida curta, uma história boa é capaz de transpor os confins do espaço e do tempo: à distância de séculos, permanece atual, porque nutre a vida.
Numa época em que se revela cada vez mais sofisticada a falsificação, atingindo níveis exponenciais (o deepfake), precisamos de sapiência para patrocinar e criar narrações belas, verdadeiras e boas. Necessitamos de coragem para rejeitar as falsas e depravadas. Precisamos de paciência e discernimento para descobrirmos histórias que nos ajudem a não perder o fio, no meio das inúmeras lacerações de hoje; histórias que tragam à luz a verdade daquilo que somos, mesmo na heroicidade oculta do dia a dia.

3. A História das histórias
A Sagrada Escritura é uma História de histórias. Quantas vicissitudes, povos, pessoas nos apresenta! Desde o início, mostra-nos um Deus que é simultaneamente criador e narrador: de facto, pronuncia a sua Palavra e as coisas existem (cf. Gn 1). Deus, através deste seu narrar, chama à vida as coisas e, no apogeu, cria o homem e a mulher como seus livres interlocutores, geradores de história juntamente com Ele. Temos um Salmo onde a criatura se conta ao Criador: «Tu modelaste as entranhas do meu ser e teceste-me no seio de minha mãe. Dou-Te graças por me teres feito uma maravilha estupenda (…). Quando os meus ossos estavam a ser formados, e eu, em segredo, me desenvolvia, recamado nas profundezas da terra, nada disso Te era oculto» (Sal 139/138, 13-15). Não nascemos perfeitos, mas necessitamos de ser constantemente «tecidos» e «recamados». A vida foi-nos dada como convite a continuar a tecer a «maravilha estupenda» que somos.
Neste sentido, a Bíblia é a grande história de amor entre Deus e a humanidade. No centro, está Jesus: a sua história leva à perfeição o amor de Deus pelo homem e, ao mesmo tempo, a história de amor do homem por Deus. Assim, o homem será chamado, de geração em geração, a contar e fixar na memória os episódios mais significativos desta História de histórias: os episódios capazes de comunicar o sentido daquilo que aconteceu.
O título desta Mensagem é tirado do livro do Êxodo, narrativa bíblica fundamental que nos faz ver Deus a intervir na história do seu povo. Com efeito, quando os filhos de Israel, escravizados, clamam por Ele, Deus ouve e recorda-Se: «Deus recordou-Se da sua aliança com Abraão, Isaac e Jacob. Deus viu os filhos de Israel e reconheceu-os» (Ex 2, 24-25). Da memória de Deus brota a libertação da opressão, que se verifica através de sinais e prodígios. E aqui o Senhor dá a Moisés o sentido de todos estes sinais: «Para que possas contar e fixar na memória do teu filho e do filho do teu filho (…) os meus sinais que Eu realizei no meio deles. E vós conhecereis que Eu sou o Senhor» (Ex 10, 2). A experiência do Êxodo ensina-nos que o conhecimento de Deus se transmite sobretudo contando, de geração em geração, como Ele continua a tornar-Se presente. O Deus da vida comunica-Se, narrando a vida.
O próprio Jesus falava de Deus, não com discursos abstratos, mas com as parábolas, breves narrativas tiradas da vida de todos os dias. Aqui a vida faz-se história e depois, para o ouvinte, a história faz-se vida: tal narração entra na vida de quem a escuta e transforma-a.
Também os Evangelhos – não por acaso – são narrações. Enquanto nos informam acerca de Jesus, «performam-nos»[1] à imagem de Jesus, configuram-nos a Ele: o Evangelho pede ao leitor que participe da mesma fé para partilhar da mesma vida. O Evangelho de João diz-nos que o Narrador por excelência – o Verbo, a Palavra – fez-Se narração: «O Filho unigénito, que é Deus e está no seio do Pai, foi Ele quem O contou» (1, 18). Usei o termo «contou», porque o original exeghésato tanto se pode traduzir «revelou» como «contou». Deus teceu-Se pessoalmente com a nossa humanidade, dando-nos assim uma nova maneira de tecer as nossas histórias.


4. Uma história que se renova
A história de Cristo não é um património do passado; é a nossa história, sempre atual. Mostra-nos que Deus tomou a peito o homem, a nossa carne, a nossa história, a ponto de Se fazer homem, carne e história. E diz-nos também que não existem histórias humanas insignificantes ou pequenas. Depois que Deus Se fez história, toda a história humana é, de certo modo, história divina. Na história de cada homem, o Pai revê a história do seu Filho descido à terra. Cada história humana tem uma dignidade incancelável. Por isso, a humanidade merece narrações que estejam à sua altura, àquela altura vertiginosa e fascinante a que Jesus a elevou.
Vós «sois uma carta de Cristo – escrevia São Paulo aos Coríntios –, confiada ao nosso ministério, escrita, não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo; não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne que são os vossos corações» (2 Cor 3, 3). O Espírito Santo, o amor de Deus, escreve em nós. E, escrevendo dentro de nós, fixa em nós o bem, recorda-no-lo. De facto, re-cordar significa levar ao coração, «escrever» no coração. Por obra do Espírito Santo, cada história, mesmo a mais esquecida, mesmo aquela que parece escrita em linhas mais tortas, pode tornar-se inspirada, pode renascer como obra-prima, tornando-se um apêndice de Evangelho. Assim as Confissões de Agostinho, o Relato do Peregrino de Inácio, a História de uma alma de Teresinha do Menino Jesus, os Noivos prometidos (Promessi sposi) de Alexandre Manzoni, os Irmãos Karamazov de Fiódor Dostoevskij… e inumeráveis outras histórias, que têm representado admiravelmente o encontro entre a liberdade de Deus e a do homem. Cada um de nós conhece várias histórias que perfumam de Evangelho: testemunham o Amor que transforma a vida. Estas histórias pedem para ser partilhadas, contadas, feitas viver em todos os tempos, com todas as linguagens, por todos os meios.

5. Uma história que nos renova
Em cada grande história, entra em jogo a nossa história. Ao mesmo tempo que lemos a Escritura, as histórias dos Santos e outros textos que souberam ler a alma do homem e trazer à luz a sua beleza, o Espírito Santo fica livre para escrever no nosso coração, renovando em nós a memória daquilo que somos aos olhos de Deus. Quando fazemos memória do amor que nos criou e salvou, quando metemos amor nas nossas histórias diárias, quando tecemos de misericórdia as tramas dos nossos dias, nesse momento estamos a mudar de página. Já não ficamos atados a lamentos e tristezas, ligados a uma memória doente que nos aprisiona o coração, mas, abrindo-nos aos outros, abrimo-nos à própria visão do Narrador. Nunca é inútil narrar a Deus a nossa história: ainda que permaneça inalterada a crónica dos factos, mudam o sentido e a perspetiva. Narrarmo-nos ao Senhor é entrar no seu olhar de amor compassivo por nós e pelos outros. A Ele podemos narrar as histórias que vivemos, levar as pessoas, confiar situações. Com Ele, podemos recompor o tecido da vida, cosendo as ruturas e os rasgões. Quanto nós, todos, precisamos disso!
Com o olhar do Narrador – o único que tem o ponto de vista final –, aproximamo-nos depois dos protagonistas, dos nossos irmãos e irmãs, atores juntamente connosco da história de hoje. Sim, porque ninguém é mero figurante no palco do mundo; a história de cada um está aberta a possibilidades de mudança. Mesmo quando narramos o mal, podemos aprender a deixar o espaço à redenção; podemos reconhecer, no meio do mal, também o dinamismo do bem e dar-lhe espaço.
Por isso, não se trata de seguir as lógicas do storytelling, nem de fazer ou fazer-se publicidade, mas de fazer memória daquilo que somos aos olhos de Deus, testemunhar aquilo que o Espírito escreve nos corações, revelar a cada um que a sua história contém maravilhas estupendas. Para o conseguirmos fazer, confiemo-nos a uma Mulher que teceu a humanidade de Deus no seio e – diz o Evangelho – teceu conjuntamente tudo o que Lhe acontecia. De facto, a Virgem Maria tudo guardou, meditando-o no seu coração (cf. Lc 2, 19). Peçamos-Lhe ajuda a Ela, que soube desatar os nós da vida com a força suave do amor:


Ó Maria, mulher e mãe, Vós tecestes no seio a Palavra divina, Vós narrastes com a vossa vida as magníficas obras de Deus. Ouvi as nossas histórias, guardai-as no vosso coração e fazei vossas também as histórias que ninguém quer escutar. Ensinai-nos a reconhecer o fio bom que guia a história. Olhai o cúmulo de nós em que se emaranhou a nossa vida, paralisando a nossa memória. Pelas vossas mãos delicadas, todos os nós podem ser desatados. Mulher do Espírito, Mãe da confiança, inspirai-nos também a nós. Ajudai-nos a construir histórias de paz, histórias de futuro. E indicai-nos o caminho para as percorrermos juntos.
Roma, em São João de Latrão, na Memória de São Francisco de Sales, 24 de janeiro de 2020.
 
[Franciscus]



[1] Cf. Bento XVI, Carta enc. Spe salvi (30/XI/2007), 2: «A mensagem cristã não era só "informativa", mas "performativa". Significa isto que o Evangelho não é apenas uma comunicação de realidades que se podem saber, mas uma comunicação que gera factos e muda a vida».

Diocese de Mossoró inicia série de lives pelo Instagram


A Diocese de Mossoró inicia, nesta terça-feira, 19, às 20h,  uma série de lives com a temática "Cuidemos uns dos outros". A iniciativa faz parte da estratégia para manter a comunicação entre a Diocese e os fiéis nesse período de pandemia e isolamento social para conter a disseminação do novo coronavírus. A estreia será com o nosso Bispo Diocesano Dom Mariano Manzana e a próxima, dia 25, será com o Bispo de Caicó, Dom Antônio. As lives serão apresentadas pelos padres Miqueias e Ricardo Rubens no Instagram da Diocese @diocesedemossoro. Convidamos todos a acompanhar esses momentos especiais de formação na nossa Diocese.



De 16 a 24 de maio, a Comissão de Ecologia Integral da CNBB promove a ‘Semana Laudato Si’



Neste mês de maio a Encíclica “Laudato Sí”, sobre o cuidado com a Casa Comum, do Papa Francisco, completa cinco anos. No Brasil e no mundo, diversas iniciativas estão sendo preparadas para o momento de celebração do documento que convida a refletir sobre o futuro do planeta.
Entre os dias 16 e 25 de maio, a Comissão Episcopal Pastoral Especial para Ecologia Integral e Mineração (CEEM) da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) promove a ‘Semana Laudato Si’, 5 anos: Ecologia Integral e Mineração’. Será possível acompanhar as ações pela página da CNBB no Facebook e YouTube/cnbbnacional.
Durante esses dias, a comissão vai realizar debates temáticos diários sobre a encíclica com representantes da comissão, professores e pesquisadores, membros do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC), Conselho Indigenista Missionário (CIMI), Comissão Pastoral da Terra (CPT) e da Comissão Pastoral da Pesca (CPP).
O bispo de Caxias (MA) e presidente da Comissão pela Ecologia Integral e Mineração (CEEM), dom Sebastião Lima Duarte, e os bispos membros da comissão abrem a ‘Semana Laudato Si’ com a oração das comunidades, dia 16 de maio, às 18h.
Dom Walmor Oliveira de Azevedo
No dia 24 de maio, às 8h, o arcebispo de Belo Horizonte (MG) e presidente da CNBB, dom Walmor Oliveira de Azevedo, preside a celebração da Eucaristia na Basílica Nossa Senhora da Piedade pelos cinco anos da ‘Laudato Si’. Já o encerramento, dia 25, será direto de Brumadinho (MG), onde o bispo auxiliar de BH e membro da comissão, dom Vicente Ferreira, vai presidir a Santa Missa, às 18h.
Nestes mesmos dias, os cristãos no mundo inteiro também vão celebrar a data atendendo ao convite feito pelo Santo Padre em março. Na ocasião, Francisco deixou uma pergunta que motiva a celebração: “Que tipo de mundo queremos deixar para aqueles que nos sucedem, para as crianças que estão crescendo?”.
O urgente desafio de proteger a nossa casa comum inclui a preocupação de unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral, pois sabemos que as coisas podem mudar. O Criador não nos abandona, nunca recua no seu projeto de amor, nem Se arrepende de nos ter criado. A humanidade possui ainda a capacidade de colaborar na construção da nossa casa comum.
Papa Francisco – Carta encíclica Laudato Si’ (2015), 13
Cabe ressaltar que o Brasil é formado por seis biomas de características distintas:  Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal. Segundo o Ministério do Meio Ambiente, cada um desses abriga diferentes tipos de vegetação e de fauna. No documento do papa, o bioma que ganhou atenção especial foi a Amazônia, que é o maior do Brasil e abriga mais de 2.500 espécies de árvores e 30 mil de plantas.
De acordo com o ministério, a bacia amazônica é a maior bacia hidrográfica do mundo: cobre cerca de 6 milhões de km2 e tem 1.100 afluentes. Seu principal rio, o Amazonas, corta a região para desaguar no Oceano Atlântico, lançando ao mar cerca de 175 milhões de litros d’água a cada segundo.
Leia abaixo a programação completa da Semana Laudato Si’, 5 anos: Ecologia Integral e Mineração
16 de maio – 18hAbertura da Semana LS: oração das comunidades
Dom Sebastião Duarte – Presidente da Comissão pela Ecologia Integral e Mineração (CEEM)
Dom Cleonir Dal Bosco – Bispo de Bagé-RS
Dom Vital Corbellini – Bispo de Marabá-PA
Dom Edson Damian – Bispo de São Gabriel da Cachoeira-AM
21 de maio – 18h
A ciência e a pesquisa dialogam com a LS
Dom Vicente Ferreira – Secretário da CEEM
Pastora Romi Bencke (Secretaria Geral do Conselho de Igrejas Cristãs – CONIC)
Ima Célia Vieira (Ecologa e pesquisadora do Museo Goeldi)
Luiz Marques, professor livre-docente do Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas IFCH da UNICAMP.
22 de Mario – 18h
A defesa da casa comum
Dom André de Witte – Bispo emérito de Ruy Barbosa
Marina Oliveira (Arquidiocese de Belo Horizonte)
Gilberto Vieira (Conselho Indigenista Missionário – CIMI)
Geane (Comissão Pastoral da Terra – CPT)
Francisco Nonato (Comissão Pastoral da Pesca – CPP)
23 de maio – 18hCantando e celebrando a LS
Roberto Malvezzi (Gogo) – Assessor da CEEM
Padre Joaquim
Zé Vicente – poeta, lavrador, compositor, cantor
24 de maio – 8hCelebração da Eucaristia na Serra da Piedade – 5 anos de Laudato Si’
Dom Walmor Oliveira de Azevedo
25 de maio – 18h
25 é todo dia – Missa em Brumadinho
Dom Vicente Ferreira (CEEM)

Dom Mol agradece ao trabalho dos agentes da Pascom no contexto da pandemia


Em vídeo divulgado, o bispo auxiliar de Belo Horizonte (MG) e presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Comunicação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Joaquim Giovani Mol Guimarães dirigiu uma vídeo-mensagem a todos os agentes da Pastoral da Comunicação (Pascom) do Brasil. 
O bispo fez referência à passagem bíblica, presente no capítulo 13 do Evangelho de Mateus, que fala que o Reino de Deus é um tesouro escondido, como metáfora para falar do importante trabalho que os agentes da Pascom estão desempenhando neste tempo difícil da pandemia do Coronavírus ampliando, por meio da comunicação, a mensagem de Jesus e ajudando a curar as feridas das pessoas.
De acordo dom dom Mol, os agentes da Pascom, por meio do Reino de Deus, se empenharam no trabalho de comunicação. “Nós estamos agradecidos, impressionados e impactados positivamente. Estamos sarando nossas feridas de todas as formas porque vocês da Pastoral da Comunicação nacional, em todo o nosso Brasil, estão levando a mensagem de Jesus e amparando todas as pessoas com a evangelização neste período tão difícil que nós estamos vivendo”, disse o religioso.  
Confira no site da CNBB  

Missa Pela Saúde na Catedral de Santa Luzia em Mossoró- RN





Neste domingo, às 11h, na Catedral de Santa Luzia, acompanhe Missão Pela Saúde presidida pelo bispo Diocesano Dom Mariano Manzana, e concelebrada pelos Padres Flávio Augusto Forte Melo e Miquéias Pascoal.

Transmissão- Rádio Rural de Mossoró, YouTube Paróquia de Santa Luzia, Diocese de Mossoró, 105 FM, 95 FM, 93 FM e @tcm.hd

Reflexão para o sexto domingo da Páscoa - João 14, 15-21 (Ano A)







Neste sexto domingo da páscoa, continuamos a leitura do capítulo quatorze do Evangelho segundo João, iniciada no domingo passado. A liturgia de hoje propõe os versículos de 15 a 21. O contexto continua sendo o da última ceia de Jesus com seus discípulos em Jerusalém. Como já fizemos uma contextualização mais ampla no domingo passado, não julgamos necessário refazê-la hoje. Por isso, faremos apenas pequenos acenos a alguns elementos essenciais do contexto. O texto lido faz parte do discurso de despedida de Jesus, considerado um verdadeiro testamento, uma vez que contém a síntese de seus principais ensinamentos. João é o único evangelista que fez essa síntese final dos ensinamentos de Jesus, respondendo às necessidades concretas das suas comunidades, ameaçadas pelas perseguições e por problemas internos, quando o Evangelho foi escrito, na última década do primeiro século. Propositadamente, a liturgia prioriza a leitura de trechos desse discurso nos domingos que antecedem à solenidade da ascensão, para que as comunidades cristãs tenham clareza da essência da mensagem de Jesus e não interpretem o seu retorno para junto do Pai como ausência, mas como início de uma presença ainda mais intensa entre os seus seguidores.

Eis o que o texto afirma logo em seu início: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos” (v. 15). Enquanto o primeiro versículo do evangelho do domingo passado cobrava fé nos discípulos (Jo 14,1), o de hoje faz praticamente a mesma exigência com o amor. De fato, fé e amor são duas características indispensáveis para uma comunidade cristã. Essa é a primeira vez que Jesus pede amor para si, e o faz empregando o verbo que expressa o amor em sua máxima dimensão. Ora, no grego, idioma da redação do Evangelho, há quatro verbos que significam amar, mas somente um expressa um amor ilimitado e incondicional, capaz de doar a vida: é o verbo agapáo (άγαπάω), empregado aqui. O amor cristão tem um parâmetro que é o amor de Jesus, e os cristãos não podem amar de outro jeito que não seja esse. Quem ama Jesus guarda os seus mandamentos, o que aqui significa a totalidade de sua mensagem, uma vez que ele deixou um único mandamento, o mandamento do amor (Jo 13,34-35). Assim, mandamento no plural significa a totalidade da mensagem de Jesus, o que não consiste em preceitos morais, mas num estilo de vida.

E a consequência do amor a Jesus é a observação e vivência efetiva dos seus ensinamentos. Ele não fala de obediência aos seus mandamentos, mas de guardar, o que significa conservar, preservar algo em sua essência, sem adulterações. Inclusive, o evangelista usa aqui o mesmo verbo guardar (em grego: τηρήω – terêo) colocado na boca do mestre-sala no episódio das bodas de Caná, ao elogiar o vinho novo, desconhecido para ele, como se estivesse “guardado até agora” (Jo 2,10). Portanto, quem ama Jesus vive e mantém a sua mensagem autêntica e intacta ao longo do tempo, não obstante as adversidades, como as enfrentadas pela comunidade do evangelista. Para conservar a mensagem de Jesus em sua integridade, no entanto, a comunidade precisa ler os sinais dos tempos, à luz do Espírito Santo, já que é uma mensagem dinâmica e viva.

Estando prestes a retornar ao Pai, Jesus reconhece a vulnerabilidade dos seus discípulos, que se encontravam angustiados e com medo (Jo 14,1). Por isso, lhes faz uma promessa: “E eu rogarei ao Pai e ele vos dará um outro defensor, para que permaneça sempre convosco” (v. 16). Aqui, Jesus está se referindo ao Espírito Santo como o outro defensor, sendo que o primeiro defensor é ele mesmo (1Jo 2,1); o outro atuará na vida dos discípulos com uma presença semelhante, embora mais intensa, à do próprio Jesus em sua vida terrena. O termo grego correspondente a defensor é “Parákletos” (παράκλητος), corresponde ao termo latino “advocatus”, do qual provém a palavra advogado; se trata de uma palavra composta (παρά – pará = “junto a” + κλητος – klétos = chamado), cujo significado literal é “chamado a estar junto ou do lado” para defender, consolar e encorajar. Adaptada ao português como “Paráclito”, esse termo foi praticamente transformado em título do Espírito Santo, quando na verdade expressa a sua função na comunidade. Ora, angustiados e aflitos pelo medo, os discípulos temiam exatamente que a partida de Jesus os deixasse desamparados; a essa situação, Jesus responde prometendo o outro defensor. Assim, ele antecipa que, através do Espírito Santo, estará para sempre presente na vida dos seus seguidores de todos os tempos, com uma presença até mais efetiva do que aquela terrena, uma vez que não estará mais condicionado aos limites do espaço e do tempo.

A presença do Espírito Santo é decisiva e vital para a comunidade; por isso, Jesus continua referindo-se a ele, mostrando agora uma função clara, aquela de ajudar a manter a comunidade na Verdade, que é o próprio Pai e Jesus, já que quem vê um vê o outro (Jo 14,9), uma vez que os dois são Um (Jo 10,30): O Espírito da Verdade, que o mundo não é capaz de receber, porque não o vê nem o conhece. Vós o conheceis, porque ele permanece junto de vós e estará dentro de vós” (v. 17). Aqui, evangelista faz a contraposição, típica da sua teologia, entre a comunidade cristã e o mundo. Mundo não é a criação ou cosmos, mas toda a oposição ao Evangelho; é a negação do amor de Deus comunicado por Jesus, o que geralmente é o sistema opressor – religioso, político ou econômico – mas também as contradições e incoerências da própria comunidade. Enfim, é toda realidade que rejeita o amor de Deus, que são os sistemas que se alimentam da mentira, do ódio, da violência e de tudo o que é contrário ao Evangelho. A comunidade só resiste a tudo isso se acolher o Espírito da Verdade, a quem ela conhece, porque Jesus deu a conhecer, inclusive enviando-o para dentro de cada discípulo.

A presença do Espírito na comunidade garante proteção e amparo aos discípulos; por isso, Jesus lhes assegura: “Não vos deixarei órfãos. Eu virei a vós” (v. 18). Os discípulos temiam exatamente viver como órfãos num mundo hostil e injusto, após a partida de Jesus. Ora, os órfãos, juntamente com as viúvas, formavam a categoria de pessoas mais vulneráveis e frágeis em Israel, sujeitos à exploração dos poderosos. Eram os protótipos das pessoas abandonadas. Por isso, eram destinatários de atenção especial na própria Lei de Moisés (Dt 14,28-29). Com essa afirmação, Jesus declara que não os abandonará; pelo contrário, virá a eles; essa vinda não é a parusia, ou seja, a vinda definitiva no final dos tempos, mas o seu retorno à comunidade após a ressurreição (Jo 20,19.24); inclusive, nos relatos das aparições, o evangelista João não dirá que Jesus apareceu aos discípulos, mas que ele veio onde eles se encontravam e, por sinal, eles estavam com medo (Jo 20,19.24).

Com muita clareza, Jesus falava da sua morte ressurreição, certamente com os discípulos já mais tranquilos, após o anúncio do outro defensor: “Pouco tempo ainda, e o mundo não mais me verá, mas vós me vereis por que eu vivo e vós vivereis” (v. 19). Ao contrário do mundo, para quem a morte de Jesus será uma partida permanente, porque não se abriu para conhecer o seu amor, os discípulos não deixarão de vê-lo, pois, ressuscitado, estará para sempre vivo entre eles. A relação com Jesus é fonte de vida, pois quem lhe vê, vive. Ver aqui significa a relação de intimidade com ele, e essa relação é geradora de vida. Naquela ocasião, os discípulos confirmarão a união íntima entre Jesus e o Pai e poderão também participar dessa mesma união, como ele mesmo promete: “Naquele dia sabereis que eu estou no meu Pai e vós em mim e eu em vós” (v. 20). Logo, a presença de Jesus no Pai e do Pai em Jesus se realiza também na vida dos discípulos, eliminando, assim, toda distância entre o humano e o divino. A comunidade cristã aberta ao Espírito da Verdade é, portanto, morada de Jesus e do Pai.

No último versículo, é retomada a temática dos mandamentos, e novamente associados ao amor: “Quem acolheu os meus mandamentos e os observa, esse me ama. Ora, quem me ama, será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele” (v. 21). O termo mandamento (em grego:  έντολή – entolê), tanto no singular quanto no plural, aparece vinte e seis vezes nos evangelhos, sendo dezesseis nos sinóticos (Mt 5,19; 15,3; 19,17; 22,36;38;40; Mc 7,8.9; 10,5.19; 12,28.31; Lc 1,16; 15,29; 18,20; 23,56) e dez em João (Jo 10,18; 11,57; 12,49.50; 13,34; 14,15.21; 15,10.12); enquanto nos sinóticos sempre faz referência aos mandamentos da Lei, embora (re)interpretados por Jesus, em João os mandamentos são somente seus, não aludem à antiga Lei. Com isso, o evangelista reforça que é Jesus com seu amor o único parâmetro para a comunidade. Nesse versículo, o evangelista abre uma nova perspectiva; enquanto nos versículos anteriores o discurso foi todo construído em segunda pessoa, com Jesus falando diretamente aos discípulos reunidos com ele (“vós”), agora ele fala em terceira pessoa. Ele passa então, a dirigir-se a toda pessoa, de qualquer lugar e de qualquer época (quem, aquele, qualquer um...). Logo, a experiência que os discípulos de primeira hora estavam vivendo pode ser vivida por qualquer pessoa que cumpre o mandamento do amor. Isso significa que toda pessoa, sem distinção, pode ser discípula de Jesus. Isso foi um conforto que o evangelista transmitiu aos membros da sua comunidade, especialmente àqueles chegados por último, vítimas de preconceito e discriminação, e serve de alento para as comunidades de todos os tempos.

Convictos da presença ativa de Jesus na comunidade que vive o seu amor e o aceita como única regra de vida, somos animados a acolher o Espírito Santo para estreitar cada vez mais os laços com Ele, com o Pai e com o próximo, o primeiro destinatário do seu amor. Dessa presença emana a força necessária para resistir aos obstáculos e as convicções para perseverar na verdade do Evangelho, como único parâmetro para a vida cristã.

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

14 de maio: Dia de oração pelo fim da pandemia de coronavírus Será um dia de oração, jejum e obras de caridade.



Neste dia 14 de maio o mundo estará interligado em oração para debelar o coronavírus. Será um dia de oração, jejum e invocação a Deus Criador pela humanidade atingida pela pandemia. A iniciativa, à qual aderiu o Papa Francisco, é promovida pelo Alto Comitê para a Fraternidade Humana.
Em um vídeo distribuído em várias línguas, o Alto Comitê para a Fraternidade Humana, presidido pelo cardeal Miguel Angel Ayuso Guixot, exorta os irmãos que creem em Deus Criador a dedicar neste dia 14 de maio um momento de recolhimento, para que o Altíssimo olhe para o mundo que enfrenta o grave perigo da Covid-19 e para que preserve a humanidade, ajude-a a superar a pandemia, restaure a segurança, a estabilidade, a saúde e a prosperidade, e torne nosso mundo, uma vez eliminada essa pandemia, mais humano e mais fraterno.
Por ocasião da oração do Regina Coeli, no último dia 3 de maio, o Papa Francisco deu o seu apoio à iniciativa, pronunciando estas palavras:
“Sendo a oração um valor universal, acolhi a proposta do Alto Comitê para a Fraternidade Humana para que, no próximo dia 14 de maio, os crentes de todas as religiões se unam espiritualmente em um dia de oração e jejum e obras de caridade, para implorar a Deus que ajude a humanidade a superar a pandemia do coronavírus. Lembrem-se: no dia 14 de maio, todos os crentes juntos, crentes de diversas tradições, para rezar, jejuar e fazer obras de caridade”.
Por sua vez, o presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso, cardeal Miguel Angel Ayuso Guixot, comentando a vontade do Papa de acolher a proposta do Alto Comitê, notou como esta pandemia seja uma oportunidade para enraizar no nosso futuro o valor da fraternidade e da coexistência comum. E sobre a adesão de inúmeras personalidades a esse chamado, primeiro entre todos o secretário-geral das Nações Unidas, quis ressaltar que como seres humanos somos uma única grande família e por isso – disse – “é bom que a partir da fé dos líderes religiosos, através de grupos e responsáveis pela vida social e política, haja um momento de oração e solidariedade para invocar o fim dessa pandemia”.
A partir da hashtag #RezemosJuntos você pode  compartilha a sua oração e a oração do seu grupo.
CNBB