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XXIV Romaria da Juventude será em Mossoró

 


A Romaria da Juventude é um marco na história da Diocese de Mossoró. Todos os anos mais de 10 mil jovens se reúnem no Santuário de Nossa Senhora dos Impossíveis, em Patu, no Rio Grande do Norte, para celebrar o Dia Nacional da Juventude – DNJ. Este ano, porém, em virtude da pandemia do novo coronavírus, a Romaria presencial não será possível de acontecer, pois seria imprudente um evento desta proporção sem uma vacina contra a Covid-19.

 

“A nossa Romaria acontecerá de forma remota, no dia 24 de outubro, a partir das 17 horas, na Catedral de Santa Luzia, em Mossoró", afirma o seminarista referencial  do Setor de Juventude, Clóvis Augusto Freire Alves, que explica que o Dia Nacional da Juventude 2020 será celebrado por meio de uma live transmitida ao vivo no Facebook e Youtube da Paróquia Santa Luzia Mossoró.O evento será também retransmitido pelo You tube da Pastoral Juvenil , Regional Nordeste 2, pelas redes sociais de paróquias que integram a Arquidiocese de Natal, as Dioceses de Caicó e Mossoró. Os ouvintes poderão acompanhar também pelas ondas da Rádio Rural de Mossoró (AM 990 kHz)

 

A Romaria começa às 17h com a acolhida on-line aos jovens romeiros. Às 17h30, haverá oração do terço, e às 18h, pregação com Dom Antonio Carlos em alusão ao Dia Nacional da Juventude. Dom Antônio Carlos é bispo de Caicó e bispo referencial para a juventude no Regional Nordeste 2.  

 

O evento prossegue com sorteio e animação às 18h40; missa às 19h presidida pelo bispo Diocesano de Mossoró, Dom Mariano Manzana , e finaliza com show da banda PJSamba, de Mossoró, a partir das 20h15.

Cada jovem é convidado a viver esse momento especial de onde estiver para, unidos, mostrar como disse o Papa Francisco: 

 

“Os jovens católicos não representam meramente um fim da atividade pastoral, são membros vivos do único corpo eclesial, pessoas batizadas nas quais o Espírito do Senhor está vivo e ativo. Eles ajudam a enriquecer o que a Igreja é e não apenas o que ela faz. Eles são o presente da Igreja e não apenas o futuro dela” (nº 54).

  

 

Programação 

 17h - Acolhida

17h30 - Terço Missionário

18h - Pregação (Bispo da Diocese de Caicó - Dom Antônio Carlos) 

18h40 - Animação e sorteio

19h - Missa presidida pelo Bispo Diocesano Dom Mariano Manzana e concelebrada por Dom Antônio Carlos e pelos padres referenciais da Juventude no Rio Grande do Norte

20h15 - Show (PJ Samba/Mossoró)

 

 

Dia Mundial das Missões na Diocese

 

Dia 18 de outubro será  o Dia Mundial das Missões. Dia de festa! Queremos celebrar junto com o Papa Francisco e com toda Igreja. Domingo, às 11h, na missa na Catedral de Santa Luzia, em Mossoró, celebraremos em Ação de Graças com nosso bispo Diocesano Dom Mariano Manzana e, às 20h, teremos a CIRANDA MISSIONÁRIA com muita música, louvor e alegria para festejar esse dia. Você pode acompanhar pelo Youtube e Facebook do COMIDI, pelo Youtube e Facebook da Diocese.

Diocese de Mossoró ganha mais um presbítero

 

 


Eis que venho, com prazer, fazer a Vossa Vontade, Senhor”. Essa frase marca o convite de ordenação presbiteral do diácono  Francisco Whalison da Silva, dia 17, às 18h, na Capela de Nossa Senhora do Sagrado Coração, em Major Sales/RN. Missa presidida pelo Bispo Diocesano Dom Mariano Manzana e concelebrada pelo reitor do Seminário Santa Teresinha, Padre Francisco Crisanto, e outros sacerdotes da Diocese. Esse dia será muito especial para Dom Mariano que ordena seu quadragésimo primeiro padre e completa 16 anos de bispo.

 

Conheça o novo padre:

 Francisco Whalison da Silva, 28 anos

Mãe: Maria Madalena da Silva

Pai: Francisco Ednásio da Silva

Irmãos: 2 (1 In memoriam)

Comunidade Fazenda Nova (Major Sales)

Licenciado - Geografia (Bacharel) - Teologia e  Mestrando em Teologia

 

Primeiras missas no município de Major Sales:

 18 - 19h - Comunidade Fazenda Nova

19 - 19h - Comunidade BJDS

20 - 19h - Comunidade Baixo

25 - 9h - Matriz Nossa Senhora da Conceição em Alexandria/RN

25 - 17h - Major Sales e  Luis Gomes às 19h

 

 

Jornal A Luz de outubro: informação a serviço da evangelização!

 











XI Romaria das Famílias 2020antuário do Lima em Patu- RN

 











Foi realizada nessa segunda-feira, 12, a XI Romaria das Famílias no Santuário de Nossa Senhora dos Impossíveis, em Patu/RN. Por motivos técnicos não foi possível a transmissão, mas você pode acompanhar como foi a Santa Missa presidida pelo Bispo Diocesano, Dom Mariano Manzana, e concelebrada pelo reitor do Santuário do Lima, Padre Telmo Feitosa, e pelo diretor espiritual do ECC, Padre José Janedson. Participaram desse momento especial que marcou os 35 anos do ECC na Diocese e 50 anos no Brasil a coordenação diocesana do ECC, Francisco e Dalva, e o casal referência do Regional Nordeste 2, Bira e Gleide. Na oportunidade, foi entregue uma flor do deserto para o aniversariante desta quarta-feira, dia 13, nosso bispo Dom Mariano. Devido a pandemia do coronavírus tivemos uma Romaria das Famílias restrita sem a participação das famílias das nossas diversas paróquias. Mas, como disse Dom Mariano, todas estavam no seu coração e nas orações aos pés de Nossa Senhora dos Impossíveis.

Reflexão para o 28º Domingo do Tempo Comum – Mateus 22, 1-14 (Ano A)

 


Com o evangelho deste vigésimo oitavo domingo do tempo comum – Mt 22,1-14 – conclui-se a leitura da série de três parábolas consecutivas, contadas por Jesus em seu primeiro confronto direto com as lideranças religiosas e políticas de Jerusalém. O contexto, portanto, é o mesmo dos dois últimos domingos. Jesus se encontra em Jerusalém, vivendo a última etapa de seu ministério, e enquanto estava ensinando no templo, foi questionado pelos sacerdotes e anciãos a respeito da sua autoridade para ensinar (Mt 21,23-23). Como resposta, Jesus contou três parábolas sobre o Reino de Deus (ou dos Céus, como prefere Mateus), sendo a de hoje a terceira. Como a contextualização já foi bastante enfatizada nos dois últimos domingos, não é necessário repeti-la minuciosamente hoje.

A parábola lida hoje se destaca sobre as outras duas da série, lidas na liturgia dos dois últimos domingos: a de “um pai que tinha dois filhos e uma vinha” (Mt 21,28-32) e a dos “vinhateiros homicidas” (Mt 21,33-43). Na de hoje, o Reino dos Céus é comparado a um banquete, mais precisamente a uma festa de casamento do filho de um rei. Enquanto a imagem da vinha, predominante nas duas primeiras, possuía um significado mais restrito, impactante apenas para a cultura semita, a imagem de um banquete possui um significado bem mais universalista, podendo ser compreendida com mais facilidade também em outras culturas. Convém recordar, ainda, que essa parábola encontra-se também no Evangelho de Lucas, embora localizada num contexto diferente e com algumas modificações internas (Lc 14,15-24).

O primeiro versículo nos insere diretamente no contexto, e nos faz perceber que essa parábola é a continuidade de um discurso já iniciado, embora a tradução do texto litúrgico não expresse bem isso, ao afirmar que “Jesus voltou a falar em parábolas” (v. 1). Essa expressão dá a entender que houve uma interrupção no discurso. Conforme o contexto narrativo do Evangelho e a língua original do texto, o grego, a tradução mais adequada para essa expressão introdutória seria “Jesus continuou falando em parábolas”. O auditório é o mesmo das duas parábolas anteriores: os sumos sacerdotes e anciãos do povo, ou seja, a elite religiosa de Jerusalém, e não houve interrupção entre a parábola anterior e a de hoje que conclui a sequência. A propósito do auditório, deve-se recordar sempre que independente de quem sejam os interlocutores diretos de Jesus na narrativa, neste caso os sacerdotes e anciãos, os destinatários primeiros do ensinamento são sempre os discípulos e discípulas de todos os tempos.

Eis a parábola: “O Reino dos Céus é como a história do rei que preparou a festa de casamento do seu filho” (v. 2). Apesar de impactante, essa imagem não chega a ser novidade na linguagem bíblica. Os profetas já tinham anunciado a consumação dos tempos messiânicos com a imagem do banquete (Is 25,6-10). É uma imagem que evoca amor, alegria, fraternidade. Aqui, Jesus dispensa a linguagem litúrgico-religiosa. Não faz menção a sacrifício, nem a culto, nem a peregrinações, nem a um templo, mas a uma festa comum a todos os povos e culturas. E a festa por excelência na antiguidade, era a festa de casamento, sobretudo no mundo oriental. Era uma festa que durava em média sete dias, podendo ser ainda prolongada, a depender das condições econômicas dos noivos. No caso da parábola, sendo o casamento do filho de um rei, a duração seria bem maior. Dessa imagem usada por Jesus, evocamos, de imediato, algumas das mais importantes características do Reino: a alegria, o amor e a perenidade.

A festa em si, é sinônimo de alegria e fartura, ainda mais preparada por um rei. É certa a abundância de comida e bebida, música e muita alegria entre os convivas. O fato de ser uma festa de casamento, lembra o amor, elemento indispensável para a vida da comunidade. Sendo uma festa com duração de sete dias ou mais, lembra a perenidade: um tempo completo e perfeito, que transmite uma ideia de eternidade. Por isso, a festa de casamento (em grego: γάμος – gamos) era a mais bela de todas as festas, inclusive sonhada por tanta gente. As pessoas, na antiguidade, aguardavam com ansiedade um convite para uma festa assim. Era o momento de exagerar na alegria, inclusive na bebida (Jo 2,1-12), como atesta a própria Bíblia. É surpreendente que seja com esse tipo de festa que Jesus comparou o Reino, ao invés de uma reunião litúrgica ou vigília.

Além de um ensinamento para o presente, com essa parábola Jesus dá uma verdadeira aula sobre a história da salvação aos seus interlocutores. Diz ele que o rei “mandou os seus empregados para chamar os convidados para a festa, mas estes não quiseram vir” (v. 3). Aqui, Jesus recorda aos seus interlocutores que foi Israel o destinatário predileto de Deus, a quem foram enviados os profetas, os quais não foram ouvidos. A recusa ao convite de um rei equivale a uma rebelião. Nesse caso, Jesus enfatiza a rebelião de Israel aos apelos de seu Deus. Um povo fechado, de coração duro, que não escuta o seu Senhor. Como Deus não desiste do seu povo, e nem da humanidade, eis que o convite continuou sendo feito até que, aborrecidos pela insistência do rei, os primeiros convidados passaram da indiferença à violência, chegando a matar os emissários do rei (vv. 4-5). Com a insistência do convite e a recusa dos destinatários, Jesus apresenta uma síntese de toda a história da salvação, denunciando Israel e advertindo os seus seguidores de outrora e de sempre.

O versículo sétimo é, certamente, um acréscimo posterior da comunidade de Mateus, uma vez que ele não consta na versão desta parábola no Evangelho de Lucas (Lc 14,15-24). Na época da redação do Evangelho de Mateus, Jerusalém já tinha sido destruída pelas tropas romanas e, no auge do conflito da comunidade de Mateus com a sinagoga, a destruição da cidade e do templo servia como resposta e explicação para a rejeição dos judeus à mensagem cristã. A própria lógica temporal interna da parábola não comporta tal atitude da parte do rei: se todo o reino estava concentrado e voltado para a festa, e a comida já estava à mesa, não teria sentido algum parar tudo de repente para guerrear e depois recomeçar a festa.

A parábola continua a sua sequência natural no versículo oitavo: “Em seguida, o rei disse aos empregados: a festa de casamento está pronta, mas os convidados não foram dignos dela” (v. 8) A conclusão do rei é uma acusação ao fechamento dos primeiros convidados – Israel – à não aceitação do convite, ou seja, à conversão. De fato, é notório que, ao longo da história, o quanto a mensagem profética foi rechaçada em Israel, sobretudo pelas autoridades religiosas. A falta de dignidade dos convidados fora comprovada pela indiferença e violência com que trataram os enviados do rei. Porém, a rejeição dos primeiros convidados não muda os propósitos salvíficos de Deus para com a humanidade inteira, ou seja, não levam o rei a desistir da festa.

A nova determinação do rei corresponde à insistência de Deus e à continuidade de sua oferta de vida para toda a humanidade: “Portanto, ide até às encruzilhadas dos caminhos e convidai para a festa todos os que encontrardes” (v. 9). Podemos considerar esse o versículo central de toda a parábola. Aqui está o embrião de uma Igreja-comunidade em saída! A expressão “encruzilhadas” significa o encontro com as periferias. A expressão usada na língua original do texto significa a literalmente a saída da cidade (em grego: διεξόδος – diecsódos). Era lá onde ficavam todas as pessoas de atividades “vergonhosas”, ou seja, o que era considerado escória da sociedade, como prostitutas, mendigos, assaltantes e doentes considerados impuros. Quem não tinha acesso aos bens que a cidade oferecia, incluindo os serviços religiosos. Esse versículo é um convite claro para que os seguidores e seguidoras de Jesus se voltem para as margens, para as periferias. Aqui, de modo definitivo, é apresentada a nova dinâmica do Reino, destacando seu aspecto inclusivo: todos os que forem encontrados devem ser convidados! Acabou o tempo das distinções, dos rótulos, das separações.

Finalmente, o convite tornou-se efetivo: quando foi endereçado a todos, sem distinção: a maus e bons. O resultado foi a sala cheia de convidados (v. 10). Enquanto os enviados dirigiam-se a uma elite privilegiada e indiferente, a sala permaneceu vazia. Somente quando saíram para as margens o convite encontrou adesão. Aqui está um alerta da comunidade de Mateus para as comunidades de todos os tempos. O convite, ou seja, o anúncio, deve ser feito a todos e todas, sem distinção alguma. Maus e bons são convidados para o Reino. Porém, aceitar o convite-anúncio comporta exigências e compromissos da parte do convidado.

Ninguém é excluído do Reino, mas alguém pode se autoexcluir, ao não fazer comunhão com os demais. É esse o sentido do convidado que não portou o “traje de festa” (v. 11). Caso se tratasse de uma veste real, nenhum dos convidados estaria apto, afinal, todos foram pegos de surpresa com o convite feito de última hora. Através da percepção do rei, o evangelista, chama a atenção da sua comunidade, fazendo uma advertência que serve para as comunidades de todos os tempos: não basta estar na sala, participar de reuniões e atos litúrgicos, receber sacramentos, sem disposição para a vida comunitária. O traje de festa é, aqui, o sinal de unidade entre os convivas do banquete e, portanto, dos membros da comunidade cristã: a prática das bem-aventuranças, o conteúdo programático do discipulado no Evangelho de Mateus. Todas as pessoas são convidadas e podem entrar na sala de festa, mas só permanece quem se abre ao espírito das bem-aventuranças. É o “revestir-se” de Cristo, expressão que foi inserida nas fórmulas de batismo desde as primeiras comunidades cristãs (Rm 13,14; Gl 3,27).

A reação do rei ao convidado sem o traje de festa parece violenta (vv. 12-13), mas apenas reflete o uso do gênero literário apocalíptico, tão empregado na época entre os rabinos e utilizado também pelos pregadores cristãos. Não significa castigo, mas a autoexclusão do próprio convidado. A ausência do traje de festa é a falta de disposição para “revestir-se” de Cristo, ou seja, é o fechamento ao espírito das bem-aventuranças (Mt 5,1-12). As bem-aventuranças são o caminho da felicidade e da realização plena; quem não as vive, priva-se de viver plenamente feliz e realizado, e é isso o que a imagem tão forte indica: perder o sentido da vida. Ter os pés e as mãos amarrados, chorar e ranger os dentes (v. 13), é a imagem do desespero último do ser humano. Só é desesperado quem não aceita participar do banquete da vida. Não se trata de uma descrição, mas de uma comparação, como é toda a parábola. Não aceitar participar do banquete com alegria, amor e justiça é privar-se da vida em plenitude.

O evangelista ensina, com tudo isso, que o simples fato de alguém participar de uma comunidade ou igreja não é sinal de nenhuma garantia de vida. Só vive plenamente quem aceita fazer comunhão e pratica o programa de vida de Jesus. A parábola é concluída com uma nota proverbial explicativa: “Porque muitos são os chamados, e poucos são os escolhidos” (v. 14). Mesmo dentro da comunidade, lugar do início da concretização do Reino, há sérios riscos de alguém ficar privado de vida plena. O evangelista enfatiza exatamente isso: não basta ter sido convidado ou convidada, afinal, todos são, indistintamente: bons e maus. O importante é, ao sentir o chamado, conduzir a vida segundo o programa de vida daquele que chama.

Portanto, que ninguém se sinta seguro por estar na Igreja. Todos são chamados, mas só participa plenamente da festa, ou seja, do Reino, quem porta o traje das bem-aventuranças, sinal único e distintivo dos cristãos e cristãs. O certo mesmo é que Deus quer a sala cheia; para as igrejas e comunidades eclesiais precisam ir às encruzilhadas e fazer o convite com amor, alegria diálogo e espírito de acolhimento.

Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

‘FRATELLI TUTTI’: reconhecer o outro e repensar as relações entre pessoas e povos


 Inspirado nas palavras de São Francisco de Assis, o Papa Francisco defende que um mundo mais justo e fraterno só pode ser construído se repensarmos nossas relações, tanto as pessoais quanto o convívio entre nações. Devemos lembrar que sem o outro não somos nada: “O amor rompe correntes que nos isolam e nos separam, construindo pontes”, diz o Sumo Pontífice em sua terceira encíclica, Fratelli Tutti (Todos irmãos), publicada neste domingo, 4.

O documento de oito capítulos é uma abrangente análise das relações humanas. Definido pelo Papa mesmo como “encíclica social”, o texto reúne pensamentos já expostos em outras ocasiões, os organiza, mas também desenvolve alguns elementos novos, em sintonia com a tradição da Igreja. 


O texto tem como pano de fundo a crise atual, a pandemia de COVID-19, mas ela aparece apenas como contexto histórico, escancarando problemas já existentes, como a desigualdade entre nações, a indiferença com os mais pobres, as guerras, o drama dos migrantes, e os calorosos confrontos das redes sociais, por exemplo.

O remédio contra o egoísmo e o individualismo são a fraternidade e a “amizade social”, uma forma de amor a ser vivida não só em palavras, mas, também, em fatos, no dia dia. Para tanto, é preciso reconhecer que “estamos todos no mesmo barco”, que a Terra “é nossa casa comum”, e que somente resolvendo os problemas dos outros teremos os nossos próprios simplificados.

Como é típico do Papa Francisco, em Fratelli Tutti, os pobres e “descartados” assumem grande protagonismo. Além do Santo de Assis ser diretriz, o Papa afirma que a “prepotência dos mais fortes” precisa dar lugar a sociedades mais conscientes das “características e processos próprios” vividos na base.

Menos muros, mais pontes

Citando o poeta e compositor brasileiro Vinícius de Moraes, o Papa Francisco afirma: “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida” (n. 215). Promover a chamada “cultura do encontro” é um objetivo claro da encíclica, pois “como povo, nos apaixona tentar nos encontrar, buscar pontos de contato, construir pontes, projetar algo que inclua a todos”.

Esse “estilo de vida” a que todos somos chamados vem sendo desafiado por uma lógica oposta: a da “cultura do descarte”. Ela é feita da tentação de levantar muros, “no coração, muros na terra, para evitar o encontro com outras culturas, com outras pessoas”. (n. 27)

Também compõem essa mentalidade “descartável” a falsa noção de que uma boa vida se define em “consumir sem limites” e “cuidar de si mesmos”. Alimentam essa cultura mecanismos políticos que buscam “semear o desânimo e despertar uma desconfiança constante [em relação aos outros], mesmo que disfarçada por detrás da defesa de alguns valores”. (n. 15 e 17)

As redes sociais, a quem o Papa dedica duras críticas, dão a “ilusão” de que há verdadeira comunicação digital entre as pessoas e povos. Na verdade, ali “o respeito ao outro se despedaça e, desse modo, ao mesmo tempo que apago, ignoro e mantenho afastado, posso despudoradamente invadir sua vida até o extremo” (n.42), apontando, inclusive, para os que se dizem cristãos, mas ajudam a difundir “movimentos digitais de ódio e destruição”.

Vítimas do descarte

Assim, “partes da humanidade parecem sacrificáveis em benefício de uma seleção que favorece a um setor humano digno de viver sem limites” (n.18). Como exemplo de vítimas, Francisco menciona os pobres, os deficientes, os que “ainda não são úteis” (os não nascidos) e os “que já não servem” (os idosos).

Nesse sentido, ele diz que as mulheres sempre sofrem mais, especialmente como “vítimas da violência e de abusos”, também quando afastadas dos filhos e privadas da infância (n. 227 e 261).

Em diversas partes do documento, o Papa também cita o histórico – e há muito inaceitável – problema do racismo. “É um vírus que muda facilmente e em vez de desaparecer se dissimula, mas não para de reaparecer.” (n.20) Em suma, os direitos humanos ainda não são universais.

Os muros, inclusive físicos, procuram afastar os diferentes. Francisco propõe maior colaboração para ajudar os países de origem dos migrantes – combatendo a fome e a guerra, por exemplo –, mas, também, para acolher com dignidade os que migram. “Nunca se dirá que eles não são humanos, mas, na prática, com as decisões e o modo de tratá-los, se expressa que são considerados menos valiosos, menos importantes, menos humanos.” (n.39)

‘FRATELLI TUTTI’: reconhecer o outro e repensar as relações entre pessoas e povos
(Foto Vatican Media)

O perdão na solução de conflitos

Uma das partes mais originais do documento é o capítulo 7, em que o Papa Francisco propõe “percursos para um novo encontro”. Ele apresenta a misericórdia e o perdão, ou esforços de reconciliação, como resposta para conflitos sociais e globais. “O perdão não implica o esquecimento”, pondera, mas o perdão ajuda a impedir que a mesma “força destruidora” domine a pessoa ofendida e, portanto, evita a vingança.

“O perdão é precisamente o que permite buscar a justiça sem cair no círculo vicioso da vingança nem na injustiça do esquecimento” (n.252), afirma. “A verdadeira reconciliação não escapa do conflito, mas alcança-se dentro do conflito, superando-o por meio do diálogo e de negociações transparentes, sinceras e pacientes.” (n. 244).

O individualismo e a percepção de autossuficiência também afetam as relações entre as nações, e não só entre indivíduos. O Papa Francisco propõe uma nova lógica nas relações internacionais, que coloque o ser humano, e não os territórios e propriedades, em primeiro lugar.

Ele também questiona que até hoje países pobres tenham dívidas tão altas com os ricos, o que lhes impede de evoluir (n. 120 e 126). Para regular essas relações, a Organização das Nações Unidas (ONU) precisa ser reformada, favorecendo os mais fracos.

‘Guerra justa’ e pena de morte

O Papa Francisco encerra qualquer dúvida remanescente sobre o conceito de “guerra justa” – que tentaria justificar a guerra como meio legítimo – e afirma que “toda guerra deixa o mundo pior do que o encontrou”. (n. 260 e 261)

Fazendo memória de tragédias humanas do passado – ele cita o Holocausto (Shoah), os bombardeios de Hiroshima e Nagasaki e as perseguições e massacres étnicos –, diz que sempre fará maior bem à humanidade encontrar caminhos de perdão e fraternidade.

Também recupera a evolução do ensinamento da Igreja sobre a pena de morte, citando São João Paulo II, e oficializa em sua encíclica a certeza de que não há espaço na doutrina para essa forma capital de punição, pois os sistemas penais têm diversos meios mais humanos e eficazes. Francisco também chama a prisão perpétua de “pena de morte oculta”.

“Todos os cristãos e pessoas de boa vontade são chamados, portanto, a lutar não só pela abolição da pena de morte, legal ou ilegal, e em todas as suas formas, como também com o fim de melhorar as condições carcerárias, em respeito à dignidade humana das pessoas privadas de liberdade.” (n.268)

O papel das religiões

Se São Francisco é a primeira inspiração para o documento porque “semeou paz por todas as partes”, também o é pela famosa reunião com o sultão Malik-el-Kamil, no Egito, com quem estabeleceu diálogo amigável, em 1219.

Em paralelo, o Papa Francisco recorda sua amizade com o Grande Imã de Al-Azhar, Ahmad, Al-Tayyeb, com quem assinou o “Documento sobre a Fraternidade Humana”, em 2019. Muitas das linhas de Fratelli tutti são traçadas por esse outro texto. A encíclica, conforme o próprio Papa, “não pretende resumir a doutrina sobre o amor fraterno, mas deter-se sobre sua dimensão universal, em sua abertura a todos”. (n.6)

É justamente por crerem em uma “verdade transcendente” orientadora das relações que as religiões devem ser admitidas no debate público sobre questões coletivas. “Deve haver lugar para a reflexão que provém de um fundo religioso que recolhe séculos de experiência e sabedoria” (n.275), justifica o Papa Francisco.

Mês Missionário na Diocese de Mossoró

 










O Mês Missionário tem como tema “A vida é missão” e o lema “Eis-me aqui, envia-me” (Is 6,8). A celebração acontece no mês de outubro e é preparada pelas  Pontifícias Obras Missionárias (POM) com a colaboração da CNBB, Comissão para a Amazônia e outros organismos que compõem o Conselho Missionário Nacional. A temática aborda o convite que todo cristão recebe para defender e cuidar da vida em todas as suas dimensões.


Transmissão- YouTube do COMIDI Mossoró, YouTube da Diocese de Mossoró, Facebook da Diocese de Mossoró e Rádio Rural.  

Eleições 2020: Subsídios contribuem na preparação dos cristãos para o processo eleitoral


Pouco mais de 147,9 milhões de eleitores estarão aptos a comparecer às urnas nos próximos dia 15 (primeiro turno) e 29 (segundo turno) de novembro para escolher 5.568 prefeitos, 5.568 vice-prefeitos e 57.942 vereadores em todo o Brasil, segundo informações da Corregedoria do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O Tribunal também estima que 750 mil candidatos disputarão as vagas de prefeito e vereador — não há eleições municipais no Distrito Federal.

Foi pensando neste período eleitoral que as Igrejas Particulares estão oferecendo cartilhas com orientações políticas para os cristãos católicos. O regional Sul 2 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que abrange o Estado do Paraná, costumeiramente elabora o material. Este ano a produção contou com a participação e colaboração da Assessoria Política da CNBB Nacional, a pedido da presidência da entidade.

O subsídio é destinado a eleitores e candidatos, grupos de reflexão, paróquias e comunidades. Com o título “Os cristãos e as eleições”, a cartilha tem como tema “A boa política está a serviço da vida e da paz”. “O objetivo do subsídio é contribuir para a formação de uma sadia consciência política, motivá-las à participação no processo político e fornecer critérios para orientá-las nas eleições municipais”, informa o Regional Sul 2 da CNBB.

 

Colaboração

A cartilha foi elaborada por uma equipe de especialistas nas áreas do Direito Constitucional, Direito Eleitoral, Filosofia, Sociologia, História e Cultura, Fé e Política, e visa contribuir para a formação de uma sadia consciência política e motivar a participação no processo político em vista das eleições municipais de 2020.

De acordo com o Assessor Político da CNBB, padre Paulo Renato Campos, a participação da Assessoria Política da CNBB ocorre desde as últimas eleições, em 2018, quando colaborou na elaboração da cartilha.

É um material regional, mas que é oferecido à Igreja e que tem uma aceitação muito boa dos regionais e dos bispos. E por isso a gente faz parte na elaboração, neste ano com um olhar atento ao conteúdo. A ideia é aproveitar o material produzido pelo regional que possa ser oferecido a todo o Brasil“, explica.


Conteúdo


Dividida em três partes, a cartilha aborda temas relevantes da atualidade, como a cultura da polarização e as fake news, as mudanças na legislação eleitoral e a descrição das funções dos cargos em disputa. Possui linguagem de fácil compreensão com indicações básicas sobre o universo da política, a partir do olhar da Igreja Católica, que não se identifica com nenhuma ideologia ou partido político.







Igreja em Alagoas

A Província Eclesiástica de Maceió, que reúne além da arquidiocese alagoana as dioceses de Palmeira dos Índios e Penedo, também lançou a cartilha “Eleições 2020”. O subsídio traz informações sobre a realização do pleito em meio à pandemia, a importância do voto, o papel dos poderes Legislativo e Executivo no âmbito municipal, e como fiscalizar recursos públicos e denunciar crimes eleitorais.

“A coisa pública é de alta responsabilidade para nós cristãos. Não adianta ficar lamentando que os políticos não estejam agradando. Devemos saber na hora da escolha, quem elegemos para os mandatos”, afirmou o arcebispo de Maceió, dom Antônio Muniz Fernandes.

Com base na Doutrina Social da Igreja, a cartilha foi elaborada pela Comissão de Fé e Política de Maceió e está disponível gratuitamente para os eleitores no site da arquidiocese. O documento também foi entregue aos candidatos a prefeitos e vereadores. Além disso, até novembro será publicada uma série de vídeos na internet destacando os principais pontos do subsídio.

“Queremos mostrar o que pensa, o que faz a Igreja Católica nesse âmbito. Trata-se de princípios que devem reger aquilo que vai ser a política pública de um prefeito e o dever de um vereador. As políticas públicas são o que nos interessam, como a educação, a vida, desde o nascituro àquele que vai morrer, o trabalho e o amparo aos pobres”, explicou o coordenador da Comissão Arquidiocesana de Fé e Política, cônego Walfran Fonseca

Fonte- CNBB

Reflexão para o 25º Domingo do Tempo Comum- Mateus 20, 1-16 (Ano A)

 



O evangelho proposto pela liturgia do vigésimo quinto domingo do tempo comum (ano a) é Mt 20,1-16, texto que compreende a parábola que pode ser chamada de “parábola dos trabalhadores da vinha” ou do “proprietário da vinha” ou, ainda, do “patrão generoso”. É uma parábola exclusiva do evangelista Mateus e, por ser tão rica de conteúdo, é difícil atribuir-lhe um título adequado. O mais importante, no entanto, não é a atribuição de um título, mas a assimilação da sua rica mensagem. Essa é mais uma “parábola do Reino dos Céus”. Porém, é importante recordar que uma parábola é sempre uma comparação, e não propriamente a descrição de uma realidade. 

Antes de adentrarmos diretamente no texto, é importante conhecer o seu contexto, tendo em vista uma compreensão mais adequada. O contexto geral é o da viagem de Jesus com seus discípulos para Jerusalém (Mt 19–20). Olhando para o Evangelho em seu conjunto, percebe-se que quanto mais Jesus se aproximava de Jerusalém, mais necessidade tinha de instruir seus discípulos sobre a natureza do Reino que ele estava propondo. Ora, os discípulos e as multidões que seguiam Jesus continuavam sonhando com a restauração do reino davídico-salomônico e, por isso, tinham dificuldades de compreender e aceitar o Reino que ele proponha. Diante da incompreensão e resistência dos discípulos, sobretudo, Jesus procurava cada vez mais apresentar as particularidades do Reino dos Céus e a mudança de mentalidade que esse exigia para ser assimilado e construído. Por isso, a catequese de Jesus aos discípulos é praticamente toda voltada para a dinâmica do Reino.

Considerando o conteúdo e a posição da parábola de hoje na dinâmica narrativa do Evangelho segundo Mateus, podemos concluir que ela se constitui como o ápice do ensinamento de Jesus aos discípulos sobre o Reino dos Céus. Ele continuará ensinando em Jerusalém, mas ali os destinatários e interlocutores primeiros já não serão exclusivamente os discípulos, e sim os fariseus, saduceus, doutores da lei e sacerdotes, ou seja, as lideranças e os principais movimentos religiosos da época. Portanto, o ensinamento exclusivo aos discípulos é praticamente concluído com esta parábola. Recordemos, então, o que antecede à parábola, para melhor compreendê-la: o encontro de Jesus com o jovem rico (19,16-22) e a reação dos discípulos ao desfecho desse encontro (19,23-30). A parábola que lemos hoje é, portanto, a resposta de Jesus a essas duas situações, principalmente à pergunta de Pedro: “E nós que deixamos tudo e te seguimos, que recompensa teremos?” (19,27).

Percebendo a falta de coragem do jovem rico para o despojamento e seguimento, Pedro quis tirar vantagem da situação, insinuando serem os primeiros discípulos merecedores de privilégios. Jesus lhe assegurou que não ficará sem recompensa quem deixar tudo para segui-lo, mas não promete privilégios, uma vez que “Muitos dos primeiros serão últimos, e muitos dos últimos serão primeiros” (19,30). Ora, essa expressão proverbial corresponde ao último versículo do capítulo 19 e a parábola começa no primeiro versículo do capítulo 20. Ao concluir a parábola, Jesus repete essa mesma máxima, embora modificando a ordem: “Os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos” (20,16). A parábola é, portanto, uma explicação ilustrada desse pensamento que propõe uma reviravolta na história, uma inversão total da ordem vigente, começando pela maneira de conceber as relações com Deus. E os primeiros necessitados dessa explicação são os próprios discípulos.

Feita a contextualização, podemos voltar a atenção diretamente para o texto, recordando que, pela extensão, não comentamos cada versículo, mas procuramos colher a mensagem central. Assim começa o texto: “O Reino dos Céus é como a história de um patrão que saiu de madrugada para contratar trabalhadores para a sua vinha” (v. 1). Como se vê, Jesus está introduzindo uma parábola do Reino dos Céus, e isso confere ao texto um grau de importância considerável, tendo em vista a centralidade do Reino em sua pregação. As parábolas apresentam imagens comparativas do Reino, e não descritivas. Como o Reino consiste em um mundo novo, uma sociedade alternativa, completamente diferente das sociedades humanas até então experimentadas, ele não pode ser descrito, uma vez que ainda não fora experimentado. Em relação ao protagonista da parábola, ao invés do termo patrão, como traz o texto do lecionário, é mais adequada a expressão “dono da casa” ou “pai de família”, uma imagem mais suave e mais fiel ao termo empregado pelo evangelista na língua original (em grego: οκοδεσπτ  oikodéspote).

Desde o Antigo Testamento, Deus é apresentado como o dono de uma vinha (Is 5,1-7). Logo, a vinha uma imagem clássica do povo de Deus, Israel, e passa a ser imagem também da comunidade cristã. Chama a atenção o fato de ser o próprio proprietário a sair em busca de operários para a vinha. Ele não manda um encarregado, mas vai pessoalmente. Com esse detalhe, Jesus acena para a ilegitimidade da mediação dos líderes religiosos do seu tempo, principalmente o sacerdócio do templo. Os chefes religiosos do seu tempo não tinham legitimidade para falar em nome de Deus, até porque tinham distorcido a sua imagem, transformando o Deus Pai que ama e cuida num patrão vingativo e castigador. A imagem do “dono da casa” da parábola, portanto, se aproxima do “Deus Conosco” que Jesus veio revelar (Mt 1,23; 18,20; 28,20). É uma imagem que se aproxima também daquela do “Pai misericordioso” da chamada “parábola do filho pródigo” de Lucas (Lc 15,11-32), pois não recompensa conforme os méritos, mas age por pura bondade e gratuitamente.

O proprietário demonstra um zelo ímpar para com a sua vinha: sai diversas vezes durante o dia em busca de trabalhadores: pela madrugada (v. 1), às nove da manhã (v. 3), ao meio dia (v. 5), às três (v. 5) e às cinco da tarde (v. 6). O contato interpessoal do proprietário com os operários contratados deixa ainda mais clara as novas relações entre a humanidade e o Deus da vida que Jesus revelou. Um Deus presente, realmente “Conosco”, como apresenta Mateus ao longo de todo o seu Evangelho (1,23; 18,20; 28,20). Um Deus que chama porque ama, que confia a construção do seu Reino a todos os que encontra parados nas praças, calçadas, estradas, porque nunca foram reconhecidos por ninguém. E, ao chamar, esse Deus não pede currículo algum, porque sua intenção é a inclusão: ele não quer que ninguém fique fora do seu Reino, ao contrário da religião que segregava e excluía, ao classificar as pessoas entre justos e pecadores.

Ao contrário do sistema vigente na época de Jesus e no período da redação do Evangelho segundo Mateus, no Reino por ele anunciado, não há lugar para a competitividade, nem para a meritocracia. É claro que nem todos conseguiam assimilar com facilidade essa nova mentalidade inclusiva: a passagem da religião da lei para a da misericórdia, da bondade. Essa dificuldade é demonstrada na parábola pela reação dos primeiros contratados no momento do pagamento. Ora, ao pagar primeiro aos últimos contratados, e dar-lhes o mesmo valor dado aos contratados ainda na madrugada, o patrão inverteu completamente a lógica da economia, fez uma reviravolta total nas relações: ao invés de agir conforme a lei, ele agiu com misericórdia e bondade. E isso deixou furiosos aqueles que tinham sido contratados primeiro, como diz o texto: “ao receberem o pagamento, começaram a resmungar contra o patrão: ‘Estes últimos, trabalharam uma hora só, e tu os igualaste a nós, que suportamos o cansaço e o calor o dia inteiro’” (vv. 11-12). O patrão tinha duas opções: agir conforme a lei e, assim, perpetuar a desigualdade, ou agir pela bondade e, assim, promover a igualdade. Como preferiu a segunda opção, foi contestado.

Com a reação dos primeiros contratados, Jesus denuncia a mentalidade competitiva entre os discípulos e, ao recordar isso, Mateus também denuncia a situação da sua comunidade, composta predominantemente por cristãos provindos do judaísmo. Esses, reivindicavam vantagens e privilégios sobre os cristãos convertidos do paganismo. Como os primeiros contratados da parábola que alegavam ter suportado cansaço e calor, os cristãos de origem judaica alegavam conhecer e observar a lei e os profetas, imaginando que isso lhes daria privilégios dentro da comunidade, por serem os verdadeiros herdeiros das antigas promessas. Esse comportamento se assemelha ao do filho mais velho na parábola do “Pai misericordioso” ou “Filho pródigo” de Lucas (Lc 15,11-31), de modo que podemos equipará-las na ênfase à misericórdia do Pai revelada por Jesus, como já acenamos anteriormente.

A reação do patrão ao murmúrio dos primeiros contratados é a clara denúncia de Jesus e de Mateus às pessoas religiosas que queriam controlar o agir de Deus, prendendo-o a doutrinas e normas: “Por acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence? Ou estás com inveja porque estou sendo bom?” (v. 15). O desconforto de uma religião sustentada pela mentalidade meritocrática, retributiva e legalista é grande quando se descobre que o Deus verdadeiro é um Pai que ama, perdoa, vai pessoalmente ao encontro das pessoas afastadas e promove a igualdade. Jesus contesta radicalmente a religião que se propõe a determinar a maneira de Deus agir. Para ele, isso é inadmissível, é um verdadeiro atentado contra Deus.

Certamente, a denúncia de Jesus e do evangelista continua válida também para os dias atuais. Pois, como sabemos, ainda hoje, muitas pessoas religiosas ainda têm dificuldade de aceitar um Deus misericordioso que age com liberdade e doa seu amor a todos, sem distinção. Na verdade, esse Deus continua sendo negado por essas pessoas. É inadmissível um Deus que não premia os bons e castiga os malvados. Para essas pessoas, a salvação é um prêmio, e não um dom; Deus é um soberano, e não um Pai; o outro é um concorrente, e não um irmão; a Igreja é um tribunal, e não uma família. A maneira de agir do “dono da casa” desmente completamente essa concepção errada de Deus.

Assim, chegamos à conclusão e síntese da parábola: “Os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos” (v. 16). Como tínhamos afirmado na introdução, a parábola em si é a explicação para essa máxima proverbial. Não se trata de uma exclusão aos que chegaram primeiro no grupo de discípulos ou na comunidade, mas uma demonstração de que, o fato de chegarem primeiro não lhes dá privilégios nem supremacia sobre os que vieram e virão depois. Essa expressão é apenas um modo de enfatizar que aqueles que forem chamados por último terão acesso ao mesmo amor, à mesma bondade de Deus que os primeiros. O Reino, apresentado como vinha, é também casa, família, é fraternidade e igualdade.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN