Reflexão para o I Domingo da Quaresma– Mateus 4,1-11 (ANO A)




Após uma sequência de oito domingos, a liturgia dá uma pausa no Tempo Comum e nos convida a viver um dos seus períodos mais fortes, a Quaresma, iniciada na Quarta-Feira de Cinzas. Hoje celebramos o primeiro domingo desse tempo especial de preparação para a Páscoa do Senhor. O texto evangélico proposto para esse domingo é Mateus 4,1-11, o famoso episódio das “tentações” pelas quais passou Jesus logo após ser batizado.

Embora muito bem elaborado literariamente e teologicamente, se trata de um texto problemático, devido a nossa tendência equivocada de insistir em considerar as narrativas evangélicas como crônicas reais da vida de Jesus. Por isso, apresentamos como primeiro critério de interpretação para o nosso texto evangélico de hoje, o olhar simbólico e teológico para o mesmo, deixando de lado a ideia de um episódio concreto acontecido.

O principal objetivo do evangelista com esse episódio é apresentar Jesus como o enviado de Deus, ou seja, o “Filho amado do Pai”, conforme a revelação no batismo, cena anterior ao texto de hoje (cf. Mt 3,16), o qual permanecerá fiel aos propósitos do Pai, rejeitando todas as propostas que não condizem com os valores do Reino, sintetizadas aqui pelas três tentações apresentadas pelo diabo.

O primeiro versículo já apresenta a principal chave de leitura de todo o texto: “O Espírito conduziu Jesus ao deserto” (v.1a). Ora, “o Espírito que desceu em forma de pomba e permaneceu sobre Ele” no batismo será o condutor e guia de todas os passos e ações de Jesus; com o batismo, foi inaugurada sua vida pública, e essa, do início ao fim, será marcada pela presença do Espírito de Deus, e não apenas quando Ele vai ao deserto. Aqui, o deserto –  e;rhmoj (eremos) em grego –  não é um indicativo geográfico, mas teológico.

A ida de Jesus ao deserto, antes de tudo, indica que Ele está inserido na história do povo de Israel, fazendo parte desse e, portanto, estará sujeito aos mesmo riscos pelos quais Israel passou, da saída do Egito à conquista da terra. Logo, também o caminho de Jesus, do nascimento à ressurreição, será marcado por riscos, perigos e provas, uma vez que Ele é, embora Deus, verdadeiramente homem. Embora o deserto evoque a provação, é também o lugar ideal para o bom relacionamento com Deus, por isso, quando o povo demonstrava infidelidade, os profetas apresentavam a necessidade de retornar ao deserto para voltar a viver o ideal da aliança (cf. Os 2,14; 9,10; 13,5; Am 2,10; 5,25).

Uma vez que o deserto é sinônimo de provação e perigo, o evangelista quer dizer que aquele que tem a sua vida conduzida pelo Espírito, não está imune aos perigos da vida, não é uma pessoa blindada. Por isso, “Ele foi tentado pelo diabo” (v.b). O protagonista da tentação é o diabo –diabo,loj (diabolos) em grego – aquele que divide e atrapalha, como é tudo o que se opõe à concretização do Reino de Deus e ao caminho de Jesus. Logo, o diabo não é uma pessoa ou um ser específico, mas todo percalço posto diante do projeto de Deus.

Pelo desenvolvimento do texto, podemos perceber que Mateus quis apresentar, antes de tudo, o império romano e a religião oficial da época como manifestadores da presença do diabo na vida de Jesus e da comunidade cristã. Por quê? O império porque o texto deixa muito evidente que o poder é uma das principais ameaças e sugestões do diabo; a religião, porque os argumentos do diabo serão, posteriormente, ao longo do Evangelho, retomados pelos mestres da lei e fariseus, sobretudo, quando exigirão sinais que comprovem a autenticidade de Jesus (cf. Mt 12,38). E, de fato, os adversários mais ferrenhos de Jesus foram a religião e o império que, aliados, o levaram à morte.

Se o deserto não é um dado geográfico, assim também os “quarenta dias e quarenta noites” em que Jesus jejuou (v.2a) não podem ser considerados como um dado cronológico. Mais uma vez, trata-se de um dado teológico de grande relevância. São muitas as ocorrências do número quarenta relacionado ao tempo no Antigo Testamento: a duração do dilúvio foi de quarenta dias e quarenta noites (cf. Gn 7,4.12.17); a caminhada do povo de Deus no deserto durou quarenta anos, sendo esse um tempo de fidelidade, infidelidade e prova, bem como outros casos.

Além de evocar acontecimentos e personagens importantes da história de Israel, esse número quer dizer uma etapa completa, ou seja, uma vida inteira. Portanto, significa que toda a vida de Jesus foi marcada pela prova e, assim, é também a vida da comunidade cristã. Isso deve levar os cristãos a uma vida vigilante sem, jamais, cair nos comodismos que podem surgir. Quer dizer que a Igreja não pode, em momento algum da história, aceitar qualquer sinal de conforto, principalmente quando ofertado pelos detentores do poder. O jejum é a imagem das privações às quais são submetidos os que fazem a experiência do deserto. A fome de Jesus (v.2b) é mais uma evidência da sua humanidade.

As três tentações ou provas (cf. Mt 4,3-4; 5-7; 8-10) são proposta e contraproposta de como o ser humano deve relacionar-se com as coisas, com Deus e com o próximo. O diabo apresenta a lógica da ordem vigente, seja religiosa ou política, e Jesus propõe um caminho alternativo, o que vai caracterizar o Reino de Deus como uma sociedade alternativa a todas formas de organização social até então experimentadas pela humanidade, amparadas ou não pela religião. Diante disso, parece haver um debate ou disputa de conhecimento da Escritura entre o diabo e Jesus. É uma nítida antecipação do que ocorrerá em toda a vida de Jesus, sobretudo quando terá de enfrentar os líderes religiosos do seu tempo. É um alerta de que o mal age na história camuflado de diversas aparências, inclusive de pessoas muito religiosas.

A primeira tentação (vv.3-4) diz respeito à maneira de relacionar-se com as coisas: a lógica do império incentiva ao consumo e satisfação dos desejos. Embora faminto, Jesus percebe que não é suficiente saciar-se de pão naquele momento, pois a vida pede muito mais que pão. Por isso, com base na Escritura, Ele não dispensa o pão, mas diz que o homem não pode viver “somente” dele. A vida digna e plena não depende somente do alimento, mas de todos os valores do Reino contidos na “Palavra que sai da boca de Deus”, que será explicitada no capítulo seguinte, com as bem-aventuranças. 

A segunda tentação chama a atenção (vv.5-7) para a relação com Deus: na “cidade santa”, onde Deus morava, o que mais se podia esperar era milagres! Jesus resiste à tentação do milagre fácil, rejeitando o Deus vendido pelo templo; o seu Deus não é aquele que distribui anjos por todas as partes para guiar e proteger os seus ‘filhos bons’ apenas, como afirmava a religião da época, não é o Deus das visões e aparições nem dos espetaculares prodígios, mas é o Deus da simplicidade, das coisas pequenas, porque age a partir de dentro do ser humano.

A terceira tentação (vv.8-10) diz respeito à relação com o próximo. A lógica religiosa-imperial incentivava a busca constante de poder e, consequentemente, de domínio sobre o outro. Cada vez mais alimentavam-se as expectativas de um messias glorioso e poderoso, capaz de julgar e condenar todos os ‘inimigos’ de Israel. Para decepção de muitos, Jesus apresentou-se como messias servo e sofredor. Por isso, rejeita toda e qualquer forma de poder, pois, mesmo que esse seja exercido em nome de Deus, será sempre de origem diabólica, uma vez que impede a concretização de uma fraternidade universal. Ao invés de poder, Jesus escolherá o serviço como meio de exercício de sua autoridade. Ele não quis e nem quer o domínio do universo; quis e quer apenas que o seu amor chegue, através da Igreja, em todos os confins da terra e, assim, que a humanidade seja transformada.

“O diabo deixou Jesus” (v. porque não encontrou nEle um aliado: nem Caifás e nem César aceitaram a “rebeldia” de Jesus, por isso, continuaram tramando contra Ele até a cruz! Embora tenha usado citações do Antigo Testamento como autodefesa, Jesus vai, aos poucos, elaborando seu próprio programa alternativo àquilo que o poder vigente na época lhe tinha proposto. Seu programa é a sua própria vida com suas opções e consequências, explicitado no amplo discurso da montanha (cf. Mt 5 – 7).


Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues